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Jornal Nacional: Bonner, que já deve ter mais seguidores no Twitter que espectadores no telejornal que apresenta.

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globo__Cid-Moreira-e-S_rgio-Chapellin-d_cada-de-80__gallefull-600x461Nos anos 1980, quando eu era um jovem repórter da Veja, a redação, no sétimo andar do prédio da Abril na marginal do Tietê, se alvoroçava quando batiam 8 da noite.

Uma televisão, no fundo da redação, começava a passar o Jornal Nacional. A redação parava, mesmo em dias de fechamento, e só voltava a funcionar quando o JN terminava.

Não era só a Veja que parava. Era o Brasil. O JN tinha então 70% de audiência, em média. Às vezes mais. Ditava a agenda política e econômica do país. Roberto Marinho — que na busca de favores da ditadura dizia que a Globo era “o maior aliado” dos generais na mídia, conforme mostram documentos de Geisel reunidos em livro —  teria afirmado que notícia era o que o JN dava.

Para mim, o JN acabaria com minha saída da Veja rumo à Exame, em 1989. Perdi o hábito de vê-lo e jamais senti falta. Não voltei a ver sequer quando trabalhei na Globo, em meados dos anos 2 000. Nas reuniões do Conselho Editorial da Globo, às terças de manhã, eu chegava sem ter a mínima ideia do que o JN dera ou deixara de dar, e tinha uma certa dificuldade em me engajar em algumas conversas.

Muita gente fez o que fiz, por variados motivos. (O meu foi o incômodo em ver tanto foco em desgraças depois de ter visto o JN, na ditadura, mostrar um país paradisíaco aos brasileiros. Isso contribui para a nostalgia de alguns inocentes pelos ‘bons tempos’ dos militares. Também o conteúdo influía bem menos na Exame do que na Veja.)

Todas essas reminiscências me ocorrem ao ler que esta semana o Jornal Nacional bateu seu recorde negativo de audiência ao chegar a 18%.

É uma derrocada notável – e irremediável. Em alguns anos, os 18% parecerão muito diante da audiência que sobrará para o principal telejornal do Brasil.

O que ocorreu?

A tentação é dizer que é a ruindade técnica do JN que afastou o público. Mas, mesmo pobre o jornalismo do JN, não é esta a razão primeira do declínio.

Isto quer dizer que não adiantaria nada – pelo menos quanto ao Ibope —  trocar o diretor de telejornalismo da Globo, Ali Kamel, por alguém mais criativo e talentoso. Ou tirar Bonner, que já deve ter mais seguidores no Twitter que espectadores no telejornal que apresenta.

A real causa se chama internet.

A internet é uma mídia que os analistas classificam como “disruptora”: ela não se integra às demais, como sempre aconteceu na história do jornalismo. Ela mata.

As demais mídias – tevê aberta incluída – são progressivamente engolidas pela internet.

A situação do JN é análoga à que enfrenta a Veja. A revista definha em circulação, publicidade, influência, importância – em tudo, enfim. Não adianta trocar o diretor de redação. Mesmo que a Veja voltasse a ter a qualidade notável da década de 1980, sob o comando dos diretores JR Guzzo e Elio Gaspari, nem assim os leitores retornariam, porque o produto se tornou obsoleto como uma carroça quando despontaram automóveis nas ruas.

O milagre da Globo, hoje, é conseguir faturar como nunca, com audiências em colapso em todas as frentes, dos telejornais às novelas.

Proporcionalmente, a Globo ganha em publicidade mais do que ganhava quando alcançava três ou quatro vezes mais pessoas. Esta é a raiz da fortuna da família Marinho, a mais rica do Brasil.

O milagre se deve a uma coisa chamada BV, Bônus por Volume, uma espécie de propina que é paga às agências de publicidade para que anunciem na Globo.

Foi uma invenção de Roberto Marinho, depois seguida pelas outras grandes empresas de mídia do país, mas com resultados insignificantes se comparados aos da Globo.

Hoje, muitas agências dependem do BV para sobreviver.

Graças a isso, com cerca de 20% do mercado de mídia, a Globo tem 60% do bolo publicitário, uma bizarrice.

Isso vai mudar quando os anunciantes – que afinal pagam a conta – se recusarem a pagar tabelas cada vez maiores por produtos que alcançam cada vez menos pessoas.

Quanto ao Jornal Nacional, vive em boa parte das audiências passadas.

Políticos que fizeram carreira vendo-o influir tanto, sobretudo nos anos 70 e 80, parecem guardar dele a imagem poderosa de antes.

É a geração que está hoje no poder. “O pessoal morre de medo de 30 segundos do Jornal Nacional”, me disse recentemente um desses políticos.

Ele estava falando da dificuldade em fazer o Congresso discutir a regulação da mídia. Por isso, mesmo com uma audiência raquítica, o JN continua a ser um fator de obstrução de avanços sociais, uma espécie de Bastilha nacional.

Novas gerações de políticos vão ver o JN não pelo que foi, mas pelo que é: um programa minguante, cada vez visto por menos gente e, por isso, menos influente a cada dia.

Que venham as novas gerações, até por isso.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

a158

Por que na China pratica-se a melhor democracia geopolítica?

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a158Leio, no iPad, a monumental História da Inglaterra de David Hume, filósofo, historiador e escritor inglês do século XVIII. (O iPad é uma festa para quem quer encontrar e ler clássicos de graça.)

Hume, um dos grandes ideólogos do liberalismo, viveu e morreu como um verdadeiro filósofo.  Era um homem simples, frugal, honesto, leal, corajoso, moderada até em sua única vaidade — literária. Segundo seu amigo e admirador Adam Smith, Hume chegou moralmente ao ponto mais alto que a fragilidade humana permite.

Vários trechos da A História da Inglaterra me despertam a atenção admirada. Num deles, no capítulo que trata de Carlos I, o rei inglês que se bateu com o Parlamento e acabou deposto e decapitado em meados do século XVII na primeira revolução burguesa da humanidade, Hume lança um olhar para a influência da religião entre os britânicos nos dias do monarca infeliz.

Assim disse Hume: “De todas as nações européias, a Grã Bretanha era naquele momento, e por muito mais tempo, a mais influenciada por aquele espírito religioso que tende mais a inflamar o fanatismo do que a promover a paz e a caridade.”

São palavras eternas.

Lamentavelmente, ao longo da história, a religião tem servido muito mais para piorar do que para melhorar as pessoas e a sociedade. Quem acaba dominando-a não são os moderados, os tolerantes, aqueles que aceitam a diversidade. São os radicais, os fanáticos, os que acham que podem matar os infiéis em nome de seu Deus, seja qual for.

O filósofo inglês Bertrand Russell atribuiu ao judaísmo, no Ocidente, a semente da ideia de que uma religião é melhor que outra ao estabelecer que os judeus eram o povo escolhido.  Os cristãos, posteriormente, trucidaram ignominiosamente os judeus por entender que escolhidos, na verdade, eram eles. Depois os cristãos se destruíram uns aos outros, quando Lutero inventou o protestantismo. Os muçulmanos já surgiram com a convicção de que Alá é o único deus genuíno.

Tenho para mim que um dos maiores fatores do fenômeno chinês está na ausência de religião e da figura de Deus. A China era a civilização mais adiantada do mundo quando foi pilhada pelos britânicos  no século 19, superiores em uma única coisa: canhões. Depois dos britânicos, outras potências militares ocidentais foram tirar sua fatia da China — já então um mercado cobiçado de 400 milhões de pessoas. E quando parecia que nada mais poderia castigar a China apareceram seus vizinhos japoneses.

A China poderia ter virado um figurante no mundo. Mas não: se reergueu depois de tantas agressões predatórias, e ninguém acredita que em dez anos ela já não tenha ultrapassado os Estados Unidos como superpotência número 1. (Sempre existe a possibilidade, é claro, de que os americanos inventem um pretexto para declarar guerra à China.)

A impressionante resistência chinesa deve muito à inexistência de religião tal como conhecemos. Confúcio, o grande filósofo que estabeleceu as bases éticas que governam a China há 2 500 anos, acabou fazendo o papel de Deus para os chineses com a vantagem de não ser Deus e nem ser entendido como tal. Confúcio pregou três coisas, essencialmente: os jovens devem ser muito bem instruídos; os amigos devem ser leais uns aos outros; e os filhos devem cuidar exemplarmente dos velhos.

Confúcio deu aos chineses um guia de conduta prático e sempre atual. A musculatura interior veio do budismo, em que não existe a figura de Deus. Buda era um ser humano como todos nós — entregue às tentações, cheio de dúvidas, repleto de tentações. Na fraqueza aparente de Buda diante dos deuses de outras religiões estava, paradoxalmente, a força do budismo — e em consequência da China.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

Gabo (Gabriel García Marquez)

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Como vocês sabem ontem perdemos o grande Gabriel García Marquez, então o EOH resolveu fazer uma simples homenagem. Separamos algumas frases dele para vocês conhecerem um pouco mais do trabalho do Gabo (apelido par aos íntimos). Espero que gostem e deixem-se levar.

1. Gosto de você não por quem você é, mas por quem sou quando estou contigo.

2. Ninguém merece tuas lágrimas, e quem as merece não te fará chorar.

3. Só porque alguém não te ama como você quer, não significa que este alguém não te ame com todo o seu ser.

4. Um verdadeiro amigo é quem te pega pela mão e te toca o coração.

5. A pior forma de sentir falta de alguém é estar sentado a seu lado e saber que nunca vai poder tê-lo.

6. Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiver triste, porque nunca se sabe quem pode se apaixonar por teu sorriso.

7. Pode ser que você seja somente uma pessoa para o mundo, mas para uma pessoa você seja o mundo.

8. Não passe o tempo com alguém que não esteja disposto a passar o tempo contigo.

9. Quem sabe Deus queira que você conheça muita gente errada antes que conheças a pessoa certa, para que quando afinal conheça esta pessoa saibas estar agradecido.

10. Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.

11. Sempre haverá gente que te machuque, assim que o que você tem que fazer é seguir confiando e só ser mais cuidadoso em quem você confia duas vezes.

12. Converta-se em uma pessoa melhor e tenha certeza de saber quem você é antes de conhecer alguém e esperar que essa pessoa saiba quem você é.

13. Não se esforce tanto, as melhores coisas acontecem quando menos esperamos.

Fonte: Entenda Os Homens

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O monge, o gato e a lua: perder-se para encontrar-se !

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trilogiaO homem moderno perdeu o sentido da contemplação, de maravilhar-se diante das águas cristalinas do riacho, de encher-se de espanto face a um céu estrelado e de extasiar-se diante dos olhos brilhantes de uma criança que o olha interrogativa. Não sabe o que é o frescor de uma tarde de outono e é incapaz de ficar sozinho, sem celular, internet, televisão e aparelho de som. Ele tem medo de ouvir a voz que lhe vem de dentro, aquela que nunca mente, que nos aconselha, nos aplaude, nos julga e sempre nos acompanha. Essa pequena estória de meu irmão Waldemar Boff, que tenta pessoalmente viver no modo dos monges do deserto, nos traz de volta a nossa dimensão perdida. O que é profundamente verdadeiro só se deixa dizer bem, como atestam os sabios antigos, por pequenas estórias e raramente por conceitos. Às vezes quando imaginamos que nos perdemos, é então que nos encontramos. É o que esta estória nos quer comunicar: um desafio para todos.

“Era uma vez um eremita que vivia muito além das montanhas de Iguazaim, bem ao sul do deserto de Acaman. Fazia bem 30 anos que para lá se recolhera. Algumas cabras lhe davam o leite diário e um palmo de terra daquele vale fértil lhe dava o pão. Junto à cabana esgueiravam-se algumas ramas de videira. Durante o ano todo, sob as folhas de palmeira de cobertura, abelhas vinham fazer suas colméias.

“Há 30 bons anos que por aqui vivo! …”, suspirou o monge Porfiro. “Há 30 bons anos! …”. E, sentado sobre uma pedra, o olhar perdido nas águas do regato que saltitavam entre os seixos, deteve-se neste pensamento por longas horas. “Há 30 bons anos e não me encontrei. Perdi-me para tudo e para todos, na esperança de me encontrar. Mas perdi-me irremediavelmente !”

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, de parco farnel aos ombros e semi-rotas sandálias aos pés, pôs-se a caminho das montanhas de Igazaim, após a reza pelos peregrinos. Ele sempre subia as montanhas, quando, sob forças estranhas, seu mundo interior ameaçava desabar. Ia visitar Abba Tebaíno, eremita mais provecto e mais sábio, pai de uma geração toda de homens do deserto. Vivia ele sob um grande penhasco, de onde se podia ver lá embaixo os trigais da aldeia de Icanaum.

“Abba, perdi-me para encontrar-me. Perdi-me, porém, irremediavelmente. Não sei quem sou, nem para que ou para quem sou. Perdi o melhor de mim mesmo, o meu próprio eu. Busquei a paz e a contemplação, mas luto com uma falange de fantasmas. Fiz tudo para merecer a paz. Olha meu corpo, retorcido com uma raiz, retalhado de tantos jejuns, cilícios e vigílias! … E aqui estou, roto e combalido, vencido pelo cansaço da procura.”

E dentro da noite, sob uma lua enorme, iluminando o perfil das montanhas, Abba Tebaíno, sentado à porta da gruta, ficou a escutar com ternura infinita as confidências do irmão Porfiro.

Depois, num destes intervalos onde as palavras somem e só fica a presença, um gatinho que já vivia há muitos anos com o Abba, veio se arrastando de mansinho até a seus pés descalços. Miou, lambeu-lhe a ponta reta do burel, acomodou-se e pôs-se, com grandes olhos de criança, a contemplar a lua que, como alma de justo, subia silenciosa aos céus.

E, depois de muito tempo, começou o Abba Tebaíno a falar com grande doçura:

“Porfiro, meu filho querido, deves ser como o gato; ele nada busca para si mesmo, mas espera tudo de mim. Toda a manhã aguarda ao meu lado um pedaço de côdea e um pouco de leite desta tigela secular. Depois, vem e passa o dia juntinho a mim, lambendo-me os pés machucados. Nada quer, nada busca, tudo espera. É disponibilidade. É entrega. Vive por viver, pura e simplesmente. Vive para o outro. É dom, é graça, é gratuidade. Aqui, junto a mim deitado, contempla inocente e ingênuo, arcaico como o ser, o milagre da lua que sobe, enorme e abençoada. Não se busca a si próprio, nem mesmo na vaidade íntima da auto-purificação ou na complacência da auto-realização. Ele se perdeu irremediavelmente, para mim e para a lua…É a condição de ele ser o que é e de encontrar-se.

E um silêncio profundo desceu sobre a boca do penhasco.

Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os dois eremitas cantaram os salmos das Matinas. Seus louvores ecoaram pelas montanhas e fizeram estremecer as fímbrias do universo. Depois, deram-se o ósculo da partida. O irmão Porfiro, de parco farnel à costas e semi-rotas sandálias aos pés, retornou ao seu vale, ao sul do deserto de Acaman. Entendeu que para encontrar-se devia perder-se na mais pura e singela gratuidade.

Contam os moradores da aldeia próxima que, muitos anos depois, numa profunda e quieta noite de lua cheia, eles viram no céu um grande clarão. Era o monge Porfiro que subia, junto com a lua, à imensidão infinita daquele céu delirantemente faiscado de estrelas. Agora não precisava mais perder-se porque se havia definitivamente encontrado”.

Waldemar Boff (um dos meus 10 irmãos) estudou nos USA, é educador popular e camponês.

Fonte: Leonardo Boff

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Mineirão: um “negocião” que a imprensa mineira e nem o Ministério Público Estadual dá a mínima importância. E você, contribuinte do Estado paga a conta.

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20140407-152551
POR LEONARDO DUPIN*

No ano passado publiquei neste blog um texto sobre o repasse de dinheiro público pelo governo de Minas ao consórcio Minas Arena.

“A concessionária Minas Arena terá direito de operar o Mineirão por 25 anos. Para isso investiu R$ 654,5 milhões, dos quais recolheu do BNDES R$ 400 milhões. Nesse período, a empresa terá um retorno assegurado (em parcelas fixas e variáveis), conforme seu desempenho financeiro. Por exemplo, se o negócio não render lucro e a empresa tiver prejuízo, o governo repassaria ao consórcio um valor mensal que pode chegar até R$ 3,7 milhões por mês. O contrato assinado estabelece uma faixa de garantia: se o negócio render até R$ 2,59 milhões por mês, o governo completa a diferença entre R$ 3,7 milhões e R$ 2,59 milhões. (…) o contrato assinado impossibilita a chance de prejuízo para a empresa, o mesmo não acontecendo com os cofres públicos. Ainda que o estádio fique fechado durante esses 25 anos, o faturamento do consórcio nesse período vai passar de R$1,1 bilhão”.

Um ano depois, de acordo com matéria do jornal “O Tempo”, as previsões se confirmam:

“Em 2013, por força de um contrato firmado entre o governo mineiro e a Minas Arena, o Executivo repassou à companhia R$ 44,4 milhões apenas para garantir o lucro mínimo de R$ 3,7 milhões mensais à empresa. A obrigatoriedade de assegurar o lucro da parceira é contratual. O repasse equivale a cerca de R$ 700 por assento do estádio – são ao todo 64 mil. A empresa registrou prejuízos em todos os 12 meses de 2013.”

E o dinheiro público, repassado às empresas que compõem a Minas Arena (Egesa, Construcap e Hap Engenharia), depois irriga a campanha do Lacerda (PSB) e dos Tucanos mineiros. Aliás, um bom dado para ser atualizado nesse ano de eleição.

Resta saber, onde está o Ministério Público mineiro?

*Leonardo Dupin é jornalista e Doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp.

Fonte: Blog do Juca Kfouri

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Sofri abuso sexual. Eu mereço?

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timthumbEra noite da festa de formatura de uns amigos, em São Paulo. Por ser próximo a uma estação de metrô, e eu morar a duas quadras do metro Vila Madalena, não fazia sentido gastar uma grana em um taxi. Optei pelo transporte público na volta para casa, ao sair de lá, umas cinco da manhã. Assim que meus amigos me deixaram na estação, tive a preocupação de tirar brincos, prender o cabelo, tirar o sapato e colocar um chinelo – tudo para evitar chamar atenção. Afinal, só o que eu queria era chegar em casa e descansar.

Eis que, no meio da viagem, percebo um homem me encarando muito – ele parecia me despir com os olhos. No mesmo momento, desconcertada, desviei o olhar e me enrolei em um casaquinho (isso que meu vestido nem era decotado, tinha mangas, e descia até a altura dos joelhos). Porém, de nada adiantou. Um rápido olhar de novo e senti como se ele me engolisse com aquele olhar. Foi o que bastou para motivar minha troca de vagão.

Pouco depois, fiz baldeação para outra linha. Faltavam apenas algumas estações até a minha parada. Acontece que, para minha surpresa, a duas estações do destino final, o mesmo cara reaparece no mesmo vagão em que eu estava. Ao avistá-lo já fiquei desconfortável, mas desta vez ele teve a decência de não ficar me encarando do mesmo modo de antes.

Como eu temia, ele desceu na mesma estação que eu. Esperei que ele saísse do trem primeiro porque achei que seria melhor tê-lo no meu campo de visão. Ele foi caminhando extremamente devagar até uma das saídas do metrô. Quando o vi se dirigindo ainda vagarosamente à saída do lado direito da avenida, me adiantei para o lado oposto e ir logo – correndo – para casa. Também porque era o lado onde haviam estabelecimentos que estariam abertos e, em uma emergência, poderiam me ajudar. Avistei o tal homem andando do outro lado da avenida e comecei a pensar que talvez fosse neurose da minha cabeça e ele realmente só tinha o mesmo destino que eu e apenas me deu uma secada escrota no metrô. Pois é, não era. Na quadra de casa eis que ele ressurge, vira pra mim e começa a dizer coisas agressivas, obscenas e ameaçadoras como “vou ali bater uma pensando em você”, “tenho certeza que você é uma biscate”, entre outras coisas que prefiro nem lembrar. O louco continuou gritando enquanto saí correndo, em um misto de susto, ânsia e pânico.

Lembro até hoje quais sentimentos dominavam minha mente: raiva, medo e acima de tudo muito nojo. A cara dele, o jeito que ele falava, o palavreado chulo. Golfei. Tomei uns três banhos até sentir que estava “limpa” de novo. Não conseguia dormir, porque era só pregar o olho que parecia reviver aquele trajeto, desde a saída da festa até a entrada do meu prédio, inúmeras vezes.

Tive aquilo que 65% dos brasileiros acham que mereço: fui atacada. Sua perseguição não se consumou no ato de estupro, ainda bem. Mesmo assim, ele me assediou: foi atrás de mim, fez coerção moral. Foi o suficiente para me abalar. Quer dizer que toda essa violência é legitimada pelo simples fato de eu estar andando na rua de madrugada. “Se eu tivesse me comportado melhor…”, diriam. Curioso que é sempre o meu comportamento o alvo da crítica. Como se o abusador estivesse se comportando super certinho e eu não tivesse direitos sobre meu corpo, só de sair à noite.

Ao menos nada de tão grave aconteceu comigo – muitas outras atrocidades são cometidas diariamente, a toda hora, que ferem a moral e os direitos da mulher. O que mais me choca é que, um ano depois, eu consigo pensar racionalmente sobre tudo que aconteceu. Mas, na hora, minhas conclusões, escritas no caderninho que carregava na época, foram: eu não deveria andar no metrô com roupa de festa, eu deveria ter feito outro caminho, eu deveria ter mudado de trem, EU, EU, EU.

A impressão que dá é que nós, mulheres, passamos por uma lavagem cerebral e nem percebemos. A violência em forma de assédio nos ataca e a primeira coisa que pensamos é que a culpa é nossa. Será mesmo?!

O que aconteceu comigo é a mesma coisa que rola quando a menina que vai correr no parque e, ao ser secada de cima a baixo e “elogiada” por homens com que ela se depara pela rua, conclui que o erro é dela, que deveria usar uma calça menos agarrada ou um short menos curto. É a garota que tira fotos com o namorado e depois sofre revenge porn e conclui que o erro é dela, que ela não deveria ter feito as fotos. É a mulher que vai à balada e, ao ter que lidar com caras que já chegam passando a mão e agarrando – muitas vezes de forma violenta – , e conclui que o erro é dela, que ela não deveria beber tanto. É a mulher que anda de metrô e é encoxada descaradamente por um estranho e conclui que o erro é dela, que deveria ter acordado mais cedo pra pegar a condução mais vazia.

Poderia passar o dia listando as inúmeras situações desagradáveis pelas quais tenho certeza que a maioria das meninas já passou, sentindo-se abusada. A solução pra isso não é simples, até porque muitos homens (inclusive conhecidos meus) que acham um absurdo o cara que estuprou a menina no metrô, são os mesmos que agarram meninas sem nenhum pudor na balada “porque olha lá, se ela não se respeita, porque tenho que respeitá-la?”. Sem contar os inúmeros que acham normal o que aconteceu no metrô porque “ela mereceu”.

Fico triste de ainda ter que pensar qual roupa vou usar a depender do caminho que vou fazer até meu destino, de ter que ficar noiada sempre que pego um transporte público, e ter que me conter em baladas e festas. Tudo isso pelos outros, não por mim.


Marina é estudante de engenharia e gosta de escrever para tirar as caraminholas da cabeça. Vive em busca do seu equilíbrio, é extremamente curiosa e concorda com Dickens que um fato maravilhoso para refletir é que toda criatura humana é constituída para ser o grande segredo e o mistério para todos os outros.

Fonte: Blog da Lasciva

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