Não possuo carro e vivo como milhares de belorizontinos à deriva no caos do transporte público de BH e região metropolitana. Isso é suportável do ponto de vista econômico, opcional ou colaborativo. Anda de ônibus quem não tem carro, ou está sem ele, ou quer colaborar com o trânsito, etc. Há várias razões.

Até que nessa terça-feira (13), quando o ônibus da linha 2104 passava pela Avenida João Pinheiro, dois adolescentes tentavam pongar no ônibus. Isso é normal nas grandes cidades brasileiras, até gente grande faz isso. Eles só queriam chegar até a Avenida Afonso Pena, por um meio que não fosse a “viação canelinha” – a pé.

Aquilo não me incomodou… as varias tentativas daquelas mãozinhas sujas se agarrando na janela aberta do “buzú”. Me deixou muito irritado foi a histeria incontrolável de duas mulheres, aparentando uns 40 anos, querendo ligar para o 190, deduzindo que os meninos queriam assaltar o ônibus.

Começaram a falar que aquilo era um absurdo, “um tanto de ‘menino-de-rua’ nas ruas de Belo Horizonte” tirando o sossego da sociedade”. Que a polícia não fazia nada com eles, e falaram bonito… “- bh precisa acabar com o lixo humano em suas ruas”.

Após ouvir isso não resistir… e entrei a fundo contrário à opinião delas. Discussão vai e vem, encontrei um aliado, um estudante de Direito da UFMG, que embarcava ali mesmo na João Pinheiro. Ele ajudou no embate acerca das leis não cumpridas em garantia dos direitos e deveres das sociedades modernas.

Argumentei que nenhuma rua tem útero ou trompas, não menstruam, não fazem sexo, e para tanto, não haveria nenhuma possibilidade de avenida, praça ou rua, dar a luz há algum menino.

“Não existe menino de rua senhora, existe uma criança ou adolescente em situação de risco familiar social”, disse eu para as mulheres.

Descobri que as mulheres não eram dotadas apenas do “senso comum” das opiniões. Ambas passaram por um ambiente de construção do saber, da pesquisa, da troca de conhecimentos, etc. Uma era pedagoga e outra letrista.

É lamentável  o ocorrido. Mais ainda é saber que isso ocorre todos os dias, há milhares de crianças nos sinais de trânsito, nas praças, ganhando ou perdendo suas vidas.

O preconceito é produtor imbatível do crime. O que esperar de alguém (mal) preparado para conduzir  a educação nos caminhos certos? E de outro, que sabe também que um dos grandes problemas sociais e criminológico do país a causa e solução está na alfabetização?