Às vezes tenho o hábito de tentar adivinhar o que as pessoas andam fazendo. Na maioria dos casos o terreno dessa atividade é o ônibus. Uso diariamente dois para andar pela cidade em desenvolvimento de minhas tarefas: trabalhar, estudar, passear e adivinhar.

Sábado (18), em certa altura da Avenida João César de Oliveira, próximo a uma área de clínicas médicas entra no busú uma mulher loira, com cintura bem definida, aparentando os 37 anos. Acompanhada de uma adolescente que de imediato dei para ela 14 anos. A menina também era loira, com altura beirando os 175 centímetros, bela e bem vestida.

Estavam com um envelope na mão. Ao tentar lê-lo logo constatei que era algum exame médico. Pois, o nome e a logo marca são de um estabelecimento com atividades no ramo da medicina. A mãe de meia idade escondia por trás do sorriso um descontentamento, um sentimento misturado de angústia e alegria. A alegria de ver a filha feliz, sorridente, entusiasmada e a angústia em ter certeza de que a sua menina ,ainda não sabe que mais dias ou menos dias aquele sorriso de mais de 1 metro vai rastejar-se ao chão.

A mãe acompanhara a filha em uma de muitas de suas consultas ao médico assistente do pré-natal. Período em que uma gestante é acompanhada por um profissional para avaliações sistematizadas da gravidez.

Pouco a frente, ainda vejo a mãe aconselhando a filha para não voltar tarde que a visita teria que ser breve…aconselhando-a, etc. Ela desceria logo no próximo ponto. A menina ainda continuaria sua longa viagem, na João César e na sua nova vida que inconsciente ou não, estava grávida precocemente.

Ela vai ligar para alguém. A minha vontade é de continuar adivinhando mais coisas. Não me foi surpresa depois constatar que ambas quando entraram no ônibus estavam saindo de um médico.

A “menina-moça” liga para a casa do seu namorado. Ela havia combinado com ele que no sábado à tarde iria mostrar o “ultrasson” (ver definição). Ao telefone o timbre da sua voz era forte, seus olhos brilhavam, pareciam está sob os fleches de uma passarela de moda, o rubor facial estava presente… ao mesmo instante as lágrimas começaram a rolar. A angústia da mãe se confirmaria em pouco tempo.

“Eu combinei com o P. que levaria o ultrasson pra ele ver. Estou grávida. É um menino”.  Ela dizia isso chorando, sem se incomodar com a presença de outras pessoas no ônibus.  O seu namorado, pai de seu filho, havia quebrado o primeiro dos “combine-se” para a tarde de futebol com os amigos.

Poxa P., tinha que ser logo no dia em que ambos combinaram de ver a ultrassonografia do primeiro de vosso filho?

Aqui está o problema apontado pelos analistas do caso. Uma menina que se olhar pela generalização muitas aos 14 anos ainda guarda a boneca preferida da infância. É o reflexo que ainda não se libertou totalmente daquela fase da vida.  Contudo, a menida grávida do ônibus terá que ninar e cuidar por definitivo de uma boneca de verdade – uma criança está a caminho, em seu ventre.

Os indícios de que o pai é também muito jovem são fortes. Em mente ainda prevalece o “contrato social” de jogar futebol com os amigos. É do tipo, tenho que conhecer meu filho ainda de uma maneira muito estranha, em um exame médico que ainda nem conheço – o futebol, ou o video-game, o shopping, o que for. É mais concreto para essa moçada. Pela ordem natural da vida, nunca estarão preparados para uma gravidez na adolescência. Há várias consequências para os adolescentes envolvidos e seus filhos.

Hoje no Brasil a cada ano, cerca de 25% dos bebês que nascem são de adolescentes, número que representa quase quatro vezes mais meninas com até 14 anos.