No Brasil todos os dias uma menina fica grávida de outra menina ou menino.

Ao buscar o reconhecimento de paternidade de crianças e adolescentes, os profissionais envolvidos nesses projetos acabam mexendo de passado de vida alheias e, alguma vezes, depando-se com ferimentos bastante profundos. Muitos dos casos de paternidade não reconhecida estão ligados à falta de prevenção sexual na juventude dou a histórias  que precisam ser sufocadas, que não podem vir à tona. Antigamente,  a lei previa que filho tido “fora” do casamento não poderia ser registrado, o que acabava dando guarida a pais que queriam fugir à responsabilidade.  “Isso acabou com a Constituição de 1988, mas tem pais que alega que não pode reconhecer o filho porque é casado. Ou sejam ainda h´auma ideia arraigada no imaginário popular”, afirma o promotor  José Heitor dos Santos.

Ao realizar um trabalho pioneiro, ele foi também u dos primeiro que se deram conta de como a trama poderia ser mais intrincada que o esperado. Em Mirassol, uma adolescente de 15 anos foi chamada a indicar os pais de seus três filhos. Nomeou um vizinho para cada  criança. Mas à medida em que as conversas avançaram, ficou claro que a garota estava mentindo. No fim, descobriu-se que o padrasto da garota era o responsável pelas crianças tidas, respectivamente, aos 11 anos, aos 13 e aos 15. “Para se livrar da cadeia, casou com ela  e deixou a mãe da menina. E assim que se livrou da cadeia, largou a menina e voltou para a mãe. Hoje, mesmo que o sujeito case com a pessoa que estuprou, não se livra do processo”, conta o promotor.

Há também os casos em que a condenação social fala alto. São Sebastião do Caí, por exemplo, conseguiu identificar 59 dos 71 casos registrados até agora. Uma parte das identificações pendentes é de garotas de programa  que ou evitam conversar sobre o assunto, sabendo do preconceito que sofrem, ou não sabem com precisão quem é o pai.

Mas, evidentemente, não é só entre pessoas que têm o sexo com o atividade econômica que este tipo de situação é registrado. Há muitos casos de jovens que não fazem o devido cuidado de prevenção e acabam abreviando um importante fase da vida. Ricardo Chimenti, do Conselho Nacional de Justiça, é irresponsabilidade de muitos pais. “Existe um comodismo, um descaso, uma forma do sujeito se esconder da realidade”.

Os profissionais identificaram ainda outro tipo de ocorrência nos trabalhos de reconhecimento de paternidade: aquele em que o filho não deseja conhecer usa origem. A constatação é de que, quanto mais velha a criança, mais difícil é a aproximação com o pai. “Quando a criança tem uma pai muito comprometido, que tratou mal a mãe, que foi embora e nunca deu nenhum retorno, que a mãe o tempo inteiro falou mal desse pai, criou um monstro na cabeça dela, então é bem mais complicado”, constata a psicóloga Fátima Piovensan.

Texto original na Revista Retrato do Brasil, nº 41, dezembro de 2010, página 29.