Por Afonso Murad,

"A miséria anda solta e ainda querem prender a vítima".

A Rede Globo levou ao ar na noite de 04 de janeiro, no “Fantástico” uma reportagem sobre crianças e adolescentes em conflito com a lei. O tema foi apresentado em dois blocos, ocupando bastante tempo. Trata-se de uma série, intitulada: “Dimenor”. Como se torna cada vez mais corrente, o assunto começa e termina com casos individualizados, histórias de vida trágicas e sofridas. Tomam-se, como exemplos ilustrativos, situações do Nordeste e do Sul do Brasil, respectivamente em Fortaleza e Curitiba. Entre as histórias, ganham destaque a de um menino de 12 anos, detido duas vezes por assalto, consumo e tráfico de drogas, e a de uma adolescente grávida, com fatos semelhantes. Há ainda outra adolescente, que assassinou duas pessoas e narra o fato com desenvoltura, embora reconheça que tenha sentido “peso na consciência”. E, para completar, o choro das mães pobres, a palavra de juízes e até o testemunho de um casal rico, cuja filha foi brutalmente assassinada por dois rapazes de 15 e 17 anos, que atualmente cumprem medida sócio-educativa de privação de liberdade.
O que distingue esta delinquência real e cruel de adolescentes pobres, daquela narrada pela mesma rede nas noites de semana, na novela “A favorita”? No primeiro caso, não sabemos qual será o desfecho da história destes jovens. Alguns possivelmente serão vítimas do próprio narcotráfico, como o seriado “Dimenor” insinua. No segundo caso, Flora, a delinquente da ficção se alimenta bem, mata muitos, mente e engana durante grande parte do enredo da novela. Cabe aos representantes do Bem o triunfo em alguns míseros capítulos finais, que serão logo esquecidos. Para a mídia, apresentar a desumanização, tanto na ficção quanto na vida real, causa um impacto emocional momentâneo no telespectador. Transforma-se numa lúgubre forma de entretenimento. E nada mais.
O mais grave da reportagem do Fantástico é desconectar a delinqüência juvenil das suas causas sociais e culturais. Quem atua na área social sabe que, por detrás de um adolescente infrator, há uma enorme trama na qual se misturam violência, exclusão social, falta de oportunidades de acesso à educação e à cultura, núcleo familiar desestruturado, ausência de perspectiva para viver, etc… Soluções simples e imediatistas são ineficazes. Não se trata somente de ampliar o tempo limite para a privação de liberdade, como o programa diz nas entrelinhas, mas efetivamente oferecer possibilidades para que um adolescente tenha condições de transformar sua vida. Enquanto a mídia se contentar em apresentar fatos isolados, com coloração trágica, sem relacioná-los com suas causas e alternativas conjugadas de mudança, estaremos mergulhados numa sequência de fatos desconexos. E sem esperanças.
Para muitos adolescentes que já chegaram à situação de infratores, depois de uma vida atribulada, as chances são pequenas, mas ainda existem. Para tantos outros, no limite tênue da pobreza e da marginalidade, as possibilidades de se tornarem cidadãos com dignidade serão maiores, se efetivamente se consolidarem políticas públicas de educação e inserção social. E seria muito bom que a Globo lembrasse disso na próxima vez. Especialmente no momento em que os novos prefeitos e vereadores assumem seus mandatos.