De Carta Capital,

Ronaldinho Gaúcho está de volta à seleção. Capengando desde que o fim da Copa de 2010, quando Mano Menezes foi escalado para o papel do técnico gente-boa, para que os torcedores esquecessem os berreiros do antecessor Dunga, a equipe parece longe da velha forma, como o meia do Flamengo. Mano apostou em atletas de sua confiança, dos tempos de Grêmio e Corinthians, investiu nas maiores promessas do futebol atual, e manteve o pilar defensivo herdado da era Dunga. A mistura, até agora, deu em nada.

Ronaldinho, como a seleção, também andou capenga de um tempo pra cá – salvo uma surpreendente série de boas atuações nos jogos do Brasileiro. Portanto, sua convocação para o amistoso contra Gana, em 5 de setembro, soa como um resgate. Com ele de volta, a torcida finalmente passa a contar com um ídolo forjado em tempos de glória – no caso, a Copa de 2002. A seleção, como o Brasil, precisa de heróis, homens capazes de resgatar um período saudoso.

É uma aposta. Maestro do Flamengo, Ronaldinho mostrou que jogar futebol é como andar de bicicleta: não se esquece.

Mas é bom também que se lembre. Desde que estreou pela seleção, na Copa América de 1999, quando abriu uma chapelaria e fez seu primeiro gol, contra a Venezuela, Ronaldinho nunca foi o maestro que se esperava dele. Naquela competição, era reserva de Ronaldo (que até então tinha exclusividade no nome “Ronaldinho”) e Amoroso. Na Copa, marcou dois gols (de bola parada, um deles sem querer, mas decisivo) e viveu seu melhor momento. Mas a sombra de Ronaldo (já “Ronaldo”) e Rivaldo. Quatro anos depois, já como estrela máxima, passou longe do atleta que só não fazia chover no Barcelona. Tanto que, já em 2010, ficou de fora da lista de Dunga, que não cedeu aos apelos dos torcedores – à época já órfãos de Ronaldo, Rivaldo e Romário, os três últimos grandes gênios da seleção. O ex-craque já havia desperdiçado sua chance nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, quando foi escalado como maestro da molecada e jogou como um tiozão na pelada depois do churrasco.

Nada que não se possa esquecer. Como os tempos parecem (só parecem?) ser outros, Ronaldinho é agora novamente convocado. Com ele, Mano parece sinalizar que está disposto a jogar para a torcida. E tirar o foco dos erros cometidos até no comando do time (falam de Ronaldinho, e não dos agora sacrificados Fred e André Santos, obsessão de Mano que agora não servem mais). O tão criticado Dunga talvez tenha pecado pela coerência, mas manteve a aposta até o fim. Deixou a seleção com uma Copa América, uma Copa das Confederações e a melhor campanha nos últimos tempos nas Eliminatórias.

Mano optou por outro caminho. Um caminho mais fácil. Se Ronaldinho não jogar o que se espera dele, vai ser mais um descartado. Mas o técnico poderá dizer que tentou.

Dá para perceber que Ronaldinho, mais do que nunca, recebeu mais uma encrenca do que um presente. A convocação pode ser a porta de entrada para que ele finalmente escreva seu nome entre os grandes atletas que já vestiram a camisa da seleção. Dele sempre se espera mais – e não será com meia dúzia de passes de lado que vai cravar sua vaga para 2014. Mas, se falhar, voltará de novo à cova dos leões. E ele já falhou antes.