Veja. “Militares da Força de Pacificação divulgaram nesta terça-feira (6) um vídeo com imagens que seriam de um flagrante de tráfico de drogas na Vila Cruzeiro, comunidade que pertence ao Conjunto de Favelas da Penha, na Zona Norte do Rio“. Ouviram ou assistiram essa reportagem? É o resultado das ações questionáveis de benfeitoria do Governo do Rio de Janeiro. É preciso repensar o papel das UPP´s (Unidade de Polícia Pacificadora).

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Os Muros fora e dentro de nós

Por Jean Wyllys em Carta Capital.

Toda vez que, chegando ao Rio de Janeiro, passo pela Linha Vermelha – e eu passo por aí quase todo fim de semana – indigno-me com aquele muro mal disfarçado construído nas favelas do Complexo da Maré e outras que margeiam a linha de tráfego.

Construído pela prefeitura em parceria com o governo estadual, visa a esconder a vista dos turistas que chegam à Cidade Maravilhosa pelo aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Apesar da explicação e justificativa oficiais – de que o muro fora erguido para  isolar as populações das comunidades do barulho produzido pelos carros que trafegam na Linha Vermelha – parece-me bastante óbvio que o primeiro objetivo do muro é esconder a “feiura” da paisagem que poderia levar (e, em muitos casos, leva) os visitantes a se questionarem até que ponto o Rio é mesmo uma cidade maravilhosa.

As casas descarnadas, sem reboco, amontoando-se umas sobre as outras em tons pastéis e à margem de uma baía poluída de lixo decorrente do consumo.

O segundo objetivo do muro – jamais admitido! – é  servir de escudo para as balas que cruzam a linha durante as guerras de facções criminosas por elas separadas, solução simplista e ineficaz para a violência decorrente do narcotráfico. Parece-me bastante óbvio que o objetivo do muro é esconder o resultado da histórica injustiça social, expressa na favelização resultante da ausência de políticas  públicas eficazes de distribuição de renda, habitação e meio ambiente que assegurar vida aos moradores do Rio de Janeiro, sobretudo aos mais pobres.

Mas apesar de me parecer um estorvo, o muro da Linha Vermelha está de acordo com aquilo que o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek chama de “verdade do capitalismo global”: muros se erguem ao redor do mundo. Segundo ele, os muros de hoje – que não são da mesma noção que sustentou o muro de Berlim e, antes, a muralha da China – “não raro servem a múltiplas funções: defesa contra o terrorismo, contra os imigrantes ilegais, contra o contrabando, contra ocupação de terra, etc.”. Nesta etecétera incluo a função de defesa contra os pobres e a função estética, as quais cumpre o muro da Linha Vermelha.

Contrastes na segunda maior cidade do Brasil, o Rio de Janeiro. Foto: Agência Brasil

Os muros de hoje, contudo, não se limitam à topografia das cidades, à sua existência material, quase sempre composta de concreto e metal. Os muros ou se disfarçaram em sequências de painéis artísticos, como é o caso do muro da Linha Vermelha, ou se inscreveram na topografia de nossas almas ao migrar para dentro de nós. Como diz a letra de uma balada do Engenheiros do Hawaí que ouvia quando adolescente, “há um muro de concreto entre os nossos lábios; há um muro de Berlim dentro de mim”.

De acordo com Zizek, os muros de hoje são ícones da erosão da soberania do estado-nação e da (re) emergência de uma mentalidade fascista e neofascista decorrentes da globalização. O filósofo, contudo, não descarta o papel relevante do fundamentalismo religioso nesse processo que ameaça o estado soberano e preparado para atender e salvaguardar a pluralidade das mulheres e homens e sua diversidade cultural. Não por acaso os porta-vozes desse fundamentalismo, no Brasil, estão ligados a igrejas cujo funcionamento e atuação as deixam mais parecidas com empresas transnacionais que visam o lucro financeiro que com espaços para a comunicação com o sagrado.

Os muros (de) concretos expressam, por um lado, o fascismo que sorrateiramente impregna as políticas públicas de segurança e/ou de controle e uso do solo executadas por muitos governantes (e em alguns casos, eles sequer têm consciência desse fascismo). Por outro, as perseguições políticas – explícitas ou disfarçadas que têm como alvo homossexuais, adeptos das religiões de matriz africana (candomblé, umbanda, batuque, xangô e macumba) e ateus, são expressões dos muros que os fundamentalistas insistem em erguer nas almas dos fiéis, com a ajuda de uma mídia audiovisual cada dia mais refém do mercado e da publicidade.

E nós, defensores do estado laico e do bem-estar social, ficaremos de braços cruzados diante dessa situação? Ou esperaremos pelo dia em que o maior esconderijo já não nos servirá de abrigo nem nos dará proteção?