"A violência contra a mulher é reforçada quando reproduzimos o sexismo"?

Para acrescentar ao debate venho propor um olhar diferente e descontaminado acerca dos seguintes temas:

  • Em que lugares e quando em nome da moral e dos bons costumes realizamos o festival de machismo?
  • A propaganda da Hope é tão ofensiva quanto o “funk” que coloca a imagem da mulher abaixo do nada?
  • Se boicotamos as marcas em relação à maneira agressiva que nos apresentam seus produtos é correto perante a sociedade do consumo?
  • “Ser contra o machismo não é simplesmente ser contra um homem agredir uma mulher. Assim como não ser machista não é simplesmente tratar as mulheres bem. Ser contra o machista é lutar por uma sociedade mais igualitária, onde homens e mulheres tenham os mesmos direitos e deveres, e mais, as mesmas oportunidades e reconhecimento”.
  • É correto afirmar que propagandas assim trata a mulher como um ”bife suculento” pronto para ser devorado?
  • É claro que a mulher passou da condição “conotativa” e define-se hoje como “objeto sexual”?
  • “A violência contra a mulher é reforçada quando reproduzimos o sexismo. Não é porque esta violência não foi física que ela é menos danosa. Os casos de estupro, bem como o comportamento dos estupradores também se alicerçam no sexismo e na visão da mulher como objeto. Como se trata de publicidade, propaganda, vendas, consumidores, lucro, isso pode ser arrefecido. As mulheres que tomam o comercial como acintoso, são tratadas com outros estereótipos, são as feias, as mal amadas, as recalcadas, novamente a reprodução do sexismo. Não é permitido se criticar aquilo que incomoda? temos que nos comportar como como consumidores passivos dos discursos que nos diminuem”?

Mais uma da Amélia Bündchen – Carta Capital,

Por Clara Roman

Menos de uma semana depois de o Brasil enviar a primeira mulher para abrir uma Assembleia Geral das Nações Unidas, a marca de lingeries Hope reforçou um outro tipo de imagem da mulher brasileira em sua nova campanha publicitária. Quem protagoniza a peça é a modelo Gisele Bündchen, que exibe o corpo impecável com as roupas da empresa.

“Você é brasileira. Use seu charme” é a mensagem-chave da publicidade. No comercial, a top ensina o modo “certo” de assumir pequenos deslizes para seu marido e traduz, em poucos minutos, os estereótipos que há anos grupos feministas tentam derrubar.

Gisele tem a difícil missão de contar ao cônjuge alguns de seus pecados, como estourar o limite do cartão de crédito e bater o carro do maridão. Para se safar da fúria do homem, ela precisa usar seus dotes “genuinamente brasileiros”.  O que consiste em exibir o corpo escultural de lingerie e dizer, com um leve gingado, as atrocidades cometidas contra o provedor da casa.

Não bastasse o estereótipo da mulher que, sem trabalho, acaba por descontrolar-se nas compras e gastar todo o dinheiro do casal – com o retoque do mito ‘Mulher no volante, perigo constante’ – a propaganda ainda reforça o ideário destinado à brasileira, a da sedutora inverterada.

Vale lembrar do recente caso com brasileiras na Europa, que sofrem com preconceito associado à imagem da prostituição e do charme do corpo.

Ao mesmo tempo em que consagra o modelo da mulher-objeto, a propaganda desqualifica aquela que não carrega o modo sedutor de ser. Uma conversasem performances de sedução – e com roupas – é tida como “errada”.

Não é um caso isolado. A estereotipação de mulheres na indústria da propaganda é corriqueira e altamente discriminatória. No mundo dos publicitários, aparentemente, o sexo feminino é aquele destinado às tarefas domésticas (em comerciais de produto de limpeza) ou à satisfação masculina naspropagandas de cerveja, em que o produto é associado com o companheirismo entre amigos, fim de expediente e atrizes exuberantes.

Ao apelar para a identificação entre a espectadora e a modelo, o comercial constrange a brasileira que busca se libertar justamente da imposição do tal “charme brasileiro”.

Existe um outro movimento ao retratar o universo feminino dentro da publicidade, conectado à realidade da mulher contemporânea, na inserção no mercadode trabalho e no compartilhamento da renda do lar.  Ainda muito discretamente, no entanto, a publicidade sequer se aproxima de dar conta do complexo cenário em que se enquadra  o feminino no Brasil.

Por enquanto, a propaganda ainda se encontra a anos-luz das conquistas do movimento feminista, da emancipação feminina e da construção de um ideáriode igualdade entre os sexos.

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