Por MAURÍCIO LIMA*

Caro Juca:

Desculpe-me incomodá-lo em sua pausa. Gostaria de fazer algumas considerações neste espaço de nobres leitores sobre o ocorrido no último domingo na cracolândia de São Paulo.

Desde dezembro de 2009, quando pela última vez fotografei –de forma estúpida, de longe e escondido– os viciados da cracolândia para uma matéria momentânea, parei e mudei minha postura. Não achei aquilo correto. Não como fotógrafo, mas como cidadão.

De lá para cá, sem câmera, mas consciente, passei a frequentar aquele mundo apocalíptico nos momentos mais sombrios, na tentativa de vivenciar histórias e transformá-las em uma narrativa visual que acreditava ser de interesse do cidadão normal.

Na boca do inferno, conheci:

M., 21, rosto de modelo, um filho de 10 anos, grávida de oito meses, seca como uma taquara;

‘Poeta’, um ex-evangélico, 42 anos na rua, que, entre rima e prosa, Deus e o inferno, sem pai nem mãe, é filho de um estupro;

M., 47, professora bilíngue, 21 anos de feridas nos calcanhares da rua Helvétia, pós-graduada em crack;

A., ex-detento, com uma mordida de cachorro da PM no braço, que diz que a única coisa em que ele confia é na faca de açougue que carrega na cintura.

Creio que a força da fotografia está na capacidade de sensibilizar as pessoas. E, para isso, exige-se tempo, paciência, a perseverança necessária para você saber dialogar com aquela realidade que não lhe pertence e, então, conectar as pessoas, os leitores para dentro daquela situação através de imagens.

Dizia o legendário fotógrafo Henri Cartier-Bresson (1908-2004) que a câmera era a extensão do seu olho. Pois bem, estamos, Daniel Kfouri e este aqui que lhes escreve, cegos desde domingo. Não pelos chutes, socos e ameaças com facão que sofremos na rua dos Gusmões, mas pelo órgão que realmente perdemos de vista que foi a Polícia Militar.

Da primeira viatura, a três quarteirões do local, surpresa: para não desengomar a farda nem perder o lustre dos sapatos no meio do temporal, uma viatura da PM nega pronto atendimento, desdém do caso e se proteje num toldo.

Nosso colega Eduardo Anizelli, da Folha, que só apanhou, mas não perdeu a câmera, reforça a ajuda. Em vão, como muitos cidadãos de São Paulo, quando necessitam de segurança pública.

Ao insistirmos por uma simples ronda na região, meia hora depois, a preocupação máxima da PM era não danificar a viatura, como se o maior patrimônio do Estado fosse um para-brisa, e não cidadãos do bem que reivindicam por seus direitos e pertences.

Agora, é preciso dizer qual teria sido a atitude da PM se chamássemos Daniel Alckmin, Eduardo Kassab e Mauricio Serra? Como reagiu o sargento da PM, ao franzir as sombrancelhas, contrair os lábios e torcer levemente o pescoço ao ser indagado por nós. Mudo.

Agora é preciso dizer como cidadão nascido e criado na vizinha Santa Cecília que nenhuma política pública seria adotada se a cracolândia não estivesse enraizada no perímetro da Sala São Paulo, da Pinacoteca e que, de rebarba, chega bem próximo à porta da Folha de São Paulo. A não ser por uma catástrofe, como se a cracolândia já não fosse uma por si só.

Mauricio Lima, é fotógrafo vencedor do prêmio da revista Time de melhor fotógrafo de agência, em 2010, entre outros prêmios internacionais.

Fonte: Blog do Juca Kfouri