Assim como a Disney do Mickey Mouse, a “cracolândia” brasileira é o parque de diversões somente para poucos endinheirados, poderosos e criminosos – algumas classes políticas e elitistas. Com mais de duas décadas o confinamento para dependentes químicos e criminosos em pleno centro da maior cidade da América do Sul, é a evidência da falta de articulação entre as três esferas de governabilidade do País.

Um novo pau-de-arara

E agora querem resolver o problema de abandono de maneira higienista e com repressão violenta ao usuário de crack.

Há nove anos que este País deu e dá importantes passos à frente para a solução de seus graves problemas de infra-estrutura, divisão de riquezas, oferta de emprego e  desenvolvimento como um todo. Isto é fato. Há este mesmo marco no tempo (os nove anos), a riqueza por aqui estava extremamente concentrada nas mãos de algumas corporações e seus mandachuvas. A dita elite brasileira. Usufruímos hoje de um Bem-Estar social – os programas de distribuição de renda e mais ofertas de emprego colocaram o Brasil em posição de destaque nas competições internas entre ricos e miseráveis. A classe C e D ditam as regras da economia e da disputa de mercado. São as classes mais consumidoras da nação tupiniquim. Mais ainda há muito que se mudar por aqui, São Paulo, terra da garoa e da cracolândia, também possui a segunda maior frota de helicópteros do mundo e uma enorme área do restante do Brasil não possui saneamento básico.

Mas o parque de diversão paulistano está aí para o gozo de poucos. A cracolândia era conhecida de todos assim também como esquecida principalmente pelo poder público local e pela sociedade que ali se faz presente. O consumo de crack sempre ocorreu ali dia e noite em um quarteirão nobre do centro da vitrine econômica do País.  A operação deflagrada contra o craqueiros no início do ano recebe o nome de Ação Integrada Centro Legal – distribuída em três etapas: desmonte logístico dos traficantes para a distribuição de drogas, internação forçada para tratamento de dependentes químicos (usuários) e a manutenção dos resultados obtidos. Quem é a cracolândia? Como a transformamos em parque de diversão para poucos? Queremos de fato acabar com isso? Ou apenas, vamos mudá-la de lugar. Como quem efetivamente dentro de um grande parque de diversões usufrui da infinita possibilidade de experimentar vários brinquedos – ao custo do prazer sem limites.

As nossas cracolândias são freqüentadas por usuários comuns, traficantes, portadores de Aids e mendigos. Os moradores possuem uma faixa etária que vai desde os 14 anos até aos 40 – em sua maioria. Muitos ali, têm mais de 20 anos de vício. Há quanto tempo você ouviu falar do crack? Os três conjuntos de prédios abandonados eram tidos como um “lugar de família” para os moradores dali – em várias paredes havia essa descrição. Uma família de uma espécie de zumbis envoltos em cobertores sujos à procura de drogas e a correr da polícia. Cada usuário consome até20 pedras por dia. Metades dos presos na operação de três de janeiro, cerca de 60 pessoas, eram foragidas da Justiça, e com eles quase500 gramas de crack. O consumo para um mês por somente um usuário segundo especialista no caso. Daquela multidão que vimos dispersa e a vagar pelas ruas de São Paulo apenas pouco mais de 50 foram internados, muitos destes esperaram até oito horas por um atendimento especializado, a vagar. Faltam vagas para o atendimento. Muitos voltaram para as ruas.

 O prometido Complexo Prates, centro voltado para a recepção dos usuários de crack, com equipamentos de saúde ainda não está pronto. Projeto para a convivência de 1200 pessoas entre crianças, adolescentes e adultos, sem distinção sexual. No papel há também um albergue, um Centro de Atenção Psicosocial (Caps) e um posto médico. Faltou preparo e sobrou a violência empregada pela Polícia Militar. A Defensoria Pública recebeu uma série de denúncias de abusos por parte da PM paulista – que em dez dias de operação não apreendeu mais de meio quilo de droga. Há usuário que teve o braço quebrado e os olhos queimados por spray de pimenta. Uma usuária de 17 anos registrou na Polícia Civil prática de tortura: ela foi gravemente ferida na boca por um disparo de bala de borracha. Quando o Estado será capaz de usar um modus operandi nas ações que é inevitável o uso do aparato militar?

 Um novo “pau de arara” foi instituído em pleno centro de São Paulo, primeiro que o Complexo Prates. Por que começar por ações de saúde primeiro?  As pessoas que ficam vagando pelas ruas do País hoje, especificamente as grandes concentrações de consumo de entorpecentes não se enquadram em um problema urbanístico. É um mal da falta de assistência social e saúde mental. Os maltrapilhos e bêbados sob cobertores que andam pelos grandes centros urbanos freqüentam uma zona limite entre a vida e a morte. Pulverizar os usuários de crack pela cidade só dificulta a atuação de políticas de saúde e assistência social. Antes o lugar da fumaça branca e densa, oriundas dos cachimbos improvisados que mutila as pontas dos dedos de quem um dia teve a dignidade estripada, agora um local para jogos políticos. A ação policial atropelou o trabalho de vários agentes de saúde que ali atuavam. Por meio da criação de vínculos que são mais favoráveis para encaminhá-los ao tratamento. “Uma ação desastrosa agora, teremos de repensar a estratégia.” Afirma o desembargador Antônio Malheiros. Voltou à estaca zero um trabalho que começou em 2009 pelo Ministério Público. Um viés puramente de jogos políticos, a decisão que levou o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o governador Geraldo Alckimin (PSDB) anteciparem a operação que antes era gestada por diversos órgãos é porque os dois temiam uma ação antecipada do governo federal. Havia um plano para abril, vinculado ao Plano Nacional de Combate ao Crack e outras Drogas, anunciado em dezembro de 2011. Mas a polícia saiu na frente com o cacetete na mão e transformou a Cracolândia de São Paulo em uma chaga urbana.