Na Missa (Eucaristia) de hoje, uma experiência arrebatadora:

538510_302244629895580_803892214_n

A miopia proporciona-me o desprazer da apreciação de longa distância e permite o prazer do cheiro e da textura. Então, sempre uso os acentos da primeira até a terceira fileira da Igreja. Gosto de ver a expressão do Celebrante (Padre), dos Leituristas, a performance do Coral e de sentir a Liturgia e o Rito Eucarístico. Pois bem. Hoje, ao chegar vi de longe o banco da terceira fila vazio. Perguntei-me se havia algum evento e o tal lugar estaria reservado. Não. Na ponta voltada para a parede lateral assentava-se um Morador de Rua: homem alto, magro, barbudão, sujo e fétido. Logo nos demos conta (Eu e minha Esposa) do Evento. Resolvi, relutei, em um “insight” rápido tomei a decisão de ficar ali. A Valéria percebeu rapidamente que todos os olhares se voltavam para nós e me cutucou. Sussurrando ao meu ouvido constatou o óbvio dos olhares céticos, admirados e julgamentosos.

“Relutante” fiz a opção de concentrar-me naquela experiência – sob a minha Fé, algo proporcionado por Deus. Em seguida o Morador de Rua na sua lucidez começa a comentar baixinho os ritos da celebração. No start do Coral ele comenta: “as músicas parecem da Igreja Adventista. Isso aqui é uma Igreja Católica ou Adventista”? – Me pareceu alguém de conhecimento religioso. E de fato ao longo da Missa a participação dele foi de fiel acompanhamento de todos os ritos. Nos assentamos na ponta oposta do banco. Como se ali fosse um barco que precisasse da manobra de massa para não virar.

E na verdade foi… O barco da vida cotidiana. Nos comportamos assim. Segregando relacionamentos de acordo com nossas castas, condições econômicas, sociais e não percebemos que o “Morador de Rua” é a ‘canoa virada’. E, afundados em nosso preconceito nos distanciamos com a miopia do coração e do cérebro do Valor Humano. Permitimos-nos que várias pautas entre em nossas discussões como a do: estupro coletivo, do movimento anti corrupção, da crise, da comoção por tragédias, moléstias e etc. Mas não voltamos o olhar para o ‘excluído’, para a falta de dignidade, para a inclusão e para o Morador de Rua. Não há uma política pública voltada para este problema. Não há… Nada… Se não a Rua.

Após a aclamação do Salmo (33) o Morador arredou-se para o meio do banco. Involuntariamente uma moça (Catequista) e um outro Senhor assentou-se onde ele estava. Rapidamente eu movi as ‘antenas’ oculares como Radar e Todos da quarta fileira atrás de nós direcionava o olhar para o banco do Morador de Rua e dos Casais Diferentes. Mal sabiam eles (falando por Eu e Vá) que a diferença entre eles e nós era apenas o local de assentados. Somos iguais no Preconceito Classista. Bem próximo a de mim, o cheiro forte de suas vestes e do corpo acentuava. A cor de sua pele era um misto de encrustação de sujidades e fagulhas de algo indecifrável. Logo me passou pela cabeça “a hora do rito da Paz de Cristo”. É quando o Padre diz: “- meus Irmãos cumprimentai-vos uns aos outros”. Na minha cruzada interna eu tentava vencer “a mim mesmo”. E aproximando-se do ‘rito da paz de Cristo’, a catequista levantou-se e saiu para organizar as crianças no Altar. E quando chegou a hora D… Eu deixei me vencer pelo preconceito e o toque primário foi apenas um ‘tapinha em seu ombro’. Mas Deus (no Morador de Rua) estendeu a sua mão e em posição de ‘espera’ da minha ansiava-se por aquele aperto de mão. Apertamos-nos a mão um do outro… E ele interlocutou com o “paz de Cristo”. Não perdi minha mão. Não morri.

Pois, precisava ver a criança que saiu da primeira fila de bancos para cumprimentar (dar a paz de Cristo) ao Morador de Rua. E, todos ao redor dele e de outros bancos, assim o fizeram também. Na continuidade da Eucaristia ele continuou participando e foi para a fila da Comunhão. A celebração de hoje era sim de eventualidades. Pois, o Seminário Diocesano de Missões do Rio de Janeiro era quem Presidia a Missa. Uma obra fundada em 1987 pelo Papa João Paulo II. E que o o atual Papa (Francisco) dá muita ênfase. Como é de Missão, o Seminário têm participantes de várias nações. Lá hoje haviam de mais de cinco. Ao serem apresentados por cada País… o Morador de Rua fazia questão de sussurrar e dizer de qual continente pertencia tal nacionalidade. Uma pessoa de cultura também.