É a primeira vez… e eu amei te ver

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Espero que você tenha chegado bem em casa e veja logo essa mensagem, não falei na hora de me despedir porque eu coro, preferi manter a serenidade e deixar pra depois, mas eu gostei de ter te visto hoje. Gostei de conhecer um pouco mais sobre você e todas aquelas coisas que você me falou sobre o teu sobrinho, dava pra perceber como você é apaixonada pela família e pela fotografia e isso fica registrado na retina dos teus olhos, como se você também me fotografasse. Gostei de te ouvir falando sobre skate e sobre as férias em Alagoas e sobre a prova que vai rolar na semana que vem e como você tá nervosa com tudo isso, mas fica calma, vai dar certo, eu ligo pra saber como foi. Gostei como não gostava fazia tempo de um encontro, aquela coisa da gente sentar na mesa e ir bebendo, ir ficando bêbado e soltando com mais naturalidade tudo aquilo que nem pensou em dizer. Porque eu ensaio, você ensaia, todo mundo ensaia o que quer dizer, qual parte que a gente quer mostrar, daí edita, pesa na balança, vê se vale a pena, é como se a gente tivesse se vendendo pro outro. Mas não teve venda, dessa vez foi troca, dessa vez foi toque. Gostei de ter levado um choque quando encostei em você, gostei do susto por ter queimado a língua com o café forte – e eu nem gosto de café, mas achei bonito pedir depois do jantar -, gostei de como você nem reparou nos meus quilos a mais, ou reparou e não ligou.

É que eu amei te ver.

Fiquei com receio de dizer isso porque é a primeira vez em muito tempo que alguma coisa grita aqui dentro em letras garrafais, nem precisei de óculos, embora tivesse uns quatro graus de miopia. É como se você tivesse me visto sem desfoque, mesmo que não tivesse com lentes, mesmo que tivesse atravessado correndo o semáforo da Avenida Atlântica porque não tinha certeza que ia chegar a tempo. Eu tomei um susto, confesso. Não porque você acelerou, mas porque eu acelerei. Bateu tudo aqui dentro, num ritmo diferente do meu tambor de carnaval, bateu como se eu fosse um menino de 12 anos esperando você entrar no MSN, com o subnick preparado pra te dizer como eu amei te ver. Bateu e agora eu sou um brado retumbante e o meu hino é puro samba, eu sou teu mestre-sala e você porta a bandeira de quem chegou até a Lua e fincou a haste no meu peito: você me conquistou. Queria que essa noite fosse bossa, fosse jazz, fosse um funk batidão pra fazer barulho, mas só rio, sou tímido e tô nervoso, nem sei o que tô fazendo tão tarde aqui te escrevendo isso, só sei que sinto. Sinto essa coisa que tava aqui dentro o tempo todo e parece que acordou agora, sinto muito se tô parecendo maluco, mas aprendi que a gente não pode deixar ir embora quando mexe tanto, quando faz maremoto na gente em plena praia de Ipanema. Enfim, talvez seja o vinho, talvez seja só verdade mesmo. Avisa quando chegar em casa, te mando um beijo, te desejo boa noite, te desejo boa vida e boa sorte pra gente, meu bem.

Fonte: Entre Todas As Coisas

É como se fosse a nossa segunda-primeira vez

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alone-bathroom-fashion-girl-lonely-girls-Favim.com-426797Parei em frente ao armário em busca da camisa perfeita, e só depois de me lembrar que você gostava de botões e mangas dobradas nos cotovelos que consegui me decidir.

Desde que soube que você também estaria na tal festa, eu tenho travado lutas enormes com a minha ansiedade (e perdendo todas elas). Tentei me acalmar lembrando que já te conheço bem, que te conheço por inteira e que te rever após tanto tempo não seria nada demais. Até parece.

Cheguei mais cedo num fato inédito nestes meus vinte e poucos anos.

As horas e alguns copos e alguns vestidos e alguns casais se passaram e eu comecei a achar que talvez você nem fosse aparecer. Cruzei a sala pra encher a cara. O que mais a gente faz numa festa quando quem a gente quer não está lá? A gente bebe pra fingir que tá.

A música tava alta, eu não saberia dizer qual tocava porque na minha cabeça o que estava passando era um loop de George Harrison dizendo que eu não precisava de nenhuma outra. E Lá do outro lado eu te vi. Você era ainda mais bonita do que eu conseguia lembrar, droga de memória que me fez esquecer disso. Tentei dar o meu melhor para te ignorar, até masquei chiclete e pedi um cigarro (não fumo), mas engasguei e achei melhor deixar pra lá.

Você tava há poucos metros, mas algumas vezes poucos metros parece ser a distância mais difícil a se percorrer. Revivi toda a nossa história, mas parecia era que eu tava correndo há 40 minutos na esteira da academia. Afobado, era assim que eu tava por dentro. Do primeiro beijo roubado à briga, e quase tropecei no meu pé direito quando fui falar com você. Já sabia que tudo o que tinha acontecido era pesado. Quem diria: a saudade pesa também.

Não sabia se eu ia te falar tudo, mas é que eu senti como se tivesse carregando o mundo. sabe aquela cena mentirosa em que o Superman segura uma ilha inteira cheia de kriptonita? A diferença é que a minha cena não era mentirosa. Quase te dei de costas e peguei a primeira saída de festa, quase fingi que eu não tava vivendo aquela cena de escola-americana-em-época-de-formatura.

Só que você me chamou.

Os metros foram ao quadrado, senti minha perna tremer e não sei até agora se era amor ou se eu tava embriagado, mas te disse. Você disse “oi”, respondi enrolado. No fim das contas, você só riu enquanto eu proclamava, argumentava, tagarelava que a gente ainda pode acontecer. Que a gente pode fazer isso dar certo como se fosse uma segunda-primeira vez.

Fonte: Entre Todas As Coisas

Modos? Eu não tenho…

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IMG_2368Desculpe deixar para te contar só agora, mas achei que estivesse implícito quando você me conheceu e fomos para aquele bar na Augusta tomar uma cervejinha descompromissada e comer uma porção de fritas com maionese temperada. Eu não sou do tipo que vai aceitar tudo calada.

Não, meu querido, longe disso. Eu ando pelas ruas da cidade tentando imaginar até onde meus passos poderiam ir. Saio por aí com aquela calça de flanela que você odeia, mas não é nada pessoal. Só não acho que sou obrigada a estar linda todos os dias, com aqueles saltos que me doem o pé e a make up que vai derretendo com esse calor louco que faz lá fora. Ter meus momentos de cabelo preso em um coque mal feito é um dos meus direitos fundamentais garantidos pela minha própria constituição.

Quando a gente sair com seus amigos, não pense que farei o tipo meiga, porque não sei nem por onde começar neste improviso. Gosto de ver o futebol de domingo mesmo sem saber o nome de todos os jogadores e não vejo problema nenhum nisso. Grito um palavrão cabeludo quando estou irritada (o que acontece com frequência, confesso) e espero que você não se importe. Quando não vou com a cara de alguém, não finjo ter engolido aquela situação. Isso me dá indigestão e sempre foi assim.

Não sei ser o que nunca fui, não sei mentir sem ser essa pessoa desastrada que vive com alguns roxos espalhados pelo joelho e braço por ficar esbarrando nas coisas e nem perceber.

Não pense que pode me pedir por modos, meu amor. O meu modo é esse, de oscilar de humor mensalmente e querer ficar um tempo comigo mesma. De sair para as (raras) festas e fingir saber dançar, fazer o passinho do robô sem se importar se estão olhando ou não. De fazer uma piadinha idiota sem esperar por risadas ou por mais alguém me achando um pouco idiota. De chorar no cinema com um filme desses que o mocinho morre no final. De rir até chorar com a minha gargalhada “discreta”.

Essa sou eu. Esse é o meu jeito. Não prometo que vou mudar, até porque não exigiria nada parecido de você. Mas eu juro tentar aceitar o seu estranho jeito de ser se você se propuser a aceitar o meu. E tem coisa mais verdadeira do que dois estranhos se entendendo juntos?

Não me peça modos, meu bem. Me peça uma cerveja no bar, um chocolate quente em Campos do Jordão, uma porção de fritas naquele boteco da Augusta, como nos velhos tempos que você não se importava se eu realmente era assim, ou se era tudo improviso para parecer que não ligava. Repito: eu não ligo.

Fonte: Entre Todas As Coisas

Uma chance para amar de novo

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shutterstock_137564039-e1413543491390Ela havia cansado de procurar e apenas sentou ali na areia, vestido úmido, pontilhado de grãos minúsculos. Vestido branco, saltos na mão, cabelo desarrumado e resquícios de maquiagem. Nada de taças, a champanhe foi bebida com avidez e só restavam metas para o próximo ano, uma rosa branca na outra mão. Uma rosa apenas. Qual eram as probabilidades de ela ser a escolhida? Pular ondas, comer lentilhas. Uma rosa branca.

Ele dormiu ali por alguns minutos, chorou outros muitos. Deitado, cabelos de areia, lágrimas de sal. Metas também, metas que nunca poderia cumprir, metas ali na sua frente. Camisa de botões aberta, branca. O sol nascia e não parecia haver nada mais bonito. Primeiro, dia primeiro. Apertou um monte de areia com força e chorou mais um pouco. O mundo girava, 365, desejos contidos, segredos escondidos. O fundo do mar ali, o fundo de tudo.

Ela olhou pra rosa, sua lágrima era de rímel, sua boca tinha o gosto azedo de desilusão. Sapatos caros, vestido de grife e uma menina com uma rosa na mão. Branca. Andou mais um pouco vacilante, olhou para o sol que nascia, algo nascia. Os saltos se soltaram de seus dedos e dormiram ali na areia, um espinho na rosa, sozinho.

Ele olhou pro céu, os raios começavam a tocá-lo e algo como calor o preenchia. Levantou-se e ali estava o sol, ele estava ali, translúcido, presente como um fantasma, ano velho, velhices dentro de si. Tinha mais coisas guardadas do que imaginava.

Uma rosa branca, apenas uma. Várias já na praia, rejeitadas. Uma chance, um pedido, mais um ano. Ele olhou e encontrou algo colorido, ali. Banhado de vez em quando pelas ondas do mar, uma concha, entre várias rosa brancas, rejeitadas.

Uma chance. A rosa caiu da mão dela. Andou devagar. Seu vestido subiu quando a água começou a cobrir suas pernas, pouco a pouco. A rosa a observou da praia.

Ele pegou a concha com a mão, limpou um pouco a areia que encobria as marcas dela, sua história pré-histórica, seu relevo cjeio de segredos. Colocou no ouvido e esperou, esperou que o sol parasse ali, que as nuvens também, que tudo lhe explicasse o que estava acontecendo.

Ela não estava mais ali, mas no mar. Ela era o mar. E ali ela ficou.

“Eu quero amar”, ele falou e esperou a concha lhe responder. Ouviu o mar, ouviu seu coração bater, viu um ano surgir diante de seus olhos. E chorou novamente.

Ela passou a mão pelo cabelo e saiu do mar sorrindo, uma chance. O vestido estava colado contra seu corpo, não sentiu frio. Pegou os saltos e a rosa. Conseguiu reconhecê-la entre tantas rejeitadas, entre tantas rosas sem amor. Caminhou e apenas se virou para sorrir para o sol.

Ele deixou a concha no chão. Ouvira tudo que precisava, do amigo mais inesperado. Limpou as lágrimas de areia, caminhou sobre as rosas e nenhum espinho lhe cortou, apenas virou para sorrir para concha, que foi levada por uma onda para contar segredos para outros corações que perderam o chão, para consolar tristezas e espalhar uma esperança que as pessoas ignoram, um sentimento que vai se escondendo com o passar dos dias, com o caminhar dos ponteiros. Há sempre um ano novo para voltar a amar.


Nota do Bovolento: “A vida é um jogo de dados” é um livro de contos construído aos poucos por Rafael FariasTeixeira: toda semana um novo texto aqui no Entre Todas as Coisas. Depois ele é adicionado e compilado no aplicativo de leitura Wattpad. Clique aqui para ler o que já foi publicado.

Fonte: Entre Todas As Coisas

O antipetismo de Direita é culpa da Dilma

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image (23)Um jumento em disparada faz algum estrago… Um bando deles faz mais ainda. Inconsequentes, não darão a devida importância para os danos que podem causar, apenas correm, destruindo tudo ao redor. Nem mesmo fazem ideia de quem abriu a porteira, talvez propositalmente.

Os neo-militantes de direita agem assim. Tomam problemas seculares do Brasil (como a corrupção) como se fossem obras dos últimos governos; atribuem à presidência da República responsabilidades de outras instâncias, inclusive responsabilidades dos abridores de porteiras bicudos que povoam nosso país e não se conformam com a derrota sofrida nas urnas.

Chama mais ainda a atenção que temos jumentos desembestados que se somam aos da direita vindos da esquerda, mas trataremos deles em outro texto…

Com vergonha alheia, vi gente (quase 40% da população) que atribui a falta de água ao governo federal; há quem atribua a segurança pública também. Mas há episódios mais tristes ainda: vi uma postagem que dizia que a Dilma havia concedido o direito de visita íntima a um assassino! Para esses tontos, a culpa de toda e qualquer desgraça brasileira tem nome: Dilma!

Enfim, chegamos num ponto em que a frase afirmativa “há limites para a estupidez!” somente pode ser proferida na sua forma interrogativa: “Há limites para a estupidez?” Parece que não.

A corrupção é inerente ao capitalismo… No Brasil persiste há muito. O caso da Petrobras, tomado com assombro pela mídia golpista e a classe média cor-de-rosa, é velho. Ainda era um adolescente quando trabalhava numa loja de conexões e ouvia um vendedor externo contar histórias sobre as casas de praia de compradores da Petrobras… Nessa mesma época aprendi que a propina, que “molhar a mão”, o “fazer rir” era uma prática comum. Nunca gostei nem a pratiquei, mas todos nós convivemos com ela. Quem descobriu apenas agora que as empreiteiras e demais empresas subornam compradores em processos licitatórios? Quem não sabe que há décadas no Estado de São Paulo algumas empreiteiras dividem entre si as grandes obras e “molham as mãos” de agentes do Estado? Corruptores e corruptos, farinhas do mesmo saco, crias da mesma ordem, existem desde muito tempo: isso não foi uma invenção dos governos do PT.

Mas a jumentice parece ter se tornado um adjetivo muito comum dos nossos tempos obscuros…

Há uma movimentação que envolve a grande mídia, políticos tradicionais com capivaras imensas, o tucanato, o judiciário e uma massa de manobra histérica que parece que começou a viver apenas agora e perceber as mazelas do tipo de capitalismo que se desenvolveu no Brasil.

Embora falem em nome de algum Brasil, fica claro, pelo que defendem, que não incluem o Brasil da população que mais sofreu, pela marginalização e empobrecimento contínuo, com a dragagem das nossas riquezas naturais e com a concentração de riqueza gritante e secular… A massa de manobra histérica não faz parte, obviamente, da seleta elite que concentra em suas mãos o grosso da riqueza social produzida. Os que esbravejam contra o PT e o governo não têm ideia do que estão falando; não são capazes de apontar uma solução mínima para qualquer problema. Repetem chavões, palavras de ordem sem sentido, de gente que não conhece minimamente nossa história recente.

Façam um teste: pegue um desses surtados e pergunte o que está errado e o que deveria ser feito para resolver o problema… Vai receber de volta um grunhido histérico e sem sentido, porque eles não sabem do que estão falando.

O mais triste e temerário é que forçam uma crise política seríssima, que interessa a determinados setores do grande capital. São marionetes dele…

Defendem o retorno da ditadura militar sem saber minimamente o que caracterizou aquelas duas décadas: entrega das nossas riquezas ao  capital estrangeiro; perda constante de poder aquisitivo dos salários; mais de dez milhões de mortos por fome no nordeste; genocídio de populações nativas; prisões arbitrárias, censura, tortura e assassinato…

Há também a curiosa postura da classe média brasileira que tem asco de tudo que se refira a trabalhador…

Os governos do PT atendem, sem dúvida, aos interesses do grande capital. É um governo da ordem burguesa, que dirige o Estado capitalista… Mas ao deslocarem esforços e recursos no atendimento a populações deixadas de lado por nosso processo histórico, deslocam recursos dos cofres do grande capital, que sempre tem espaços vazios para serem ocupados. No momento da crise que envolvia o segundo mandato de FHC, o PT e o governo de Lula, com as garantias que deram, foram palatáveis ao grande capital. Na entrada dessa nova crise, trata-se de tornar toda e qualquer fonte sob controle absoluto. Há muita diferença numa taxa selic de 36% (segundo mandato de FHC) e numa de 12%… Ou 7.4, que foi o mínimo alcançado no primeiro governo de Dilma… Isso toca em interesses diversos, beneficia algumas frações do capital, prejudica outras. A pressão dentro do bloco no poder e a capacidade de uma dessas frações tornar o Estado seu valet é o que está em jogo…

Há muito que se estudar e escrever sobre essas contradições, mas isso toma muito espaço… Mas, principalmente, exige tempo e paciência histórica. Algo que está ausente por aqui… Mas retomarei o argumento para falar do antipetismo de esquerda depois…

Por enquanto, vale a constatação de que os neomilitantes da direita e os da esquerda preferem facilidades: análises de lógica formal, sem contradições. Um programa redondinho e internamente coerente, ainda que não tenha relação com a realidade. O papel aceita qualquer coisa: recebe textos sagrados e também é utilizado nos banheiros…

Valeria aos que histericamente pedem o impeachment de Dilma pensar um pouco nos pressupostos do que chamam de “limpeza” da política, pensar nas soluções para nossos problemas mais graves… Caso sejam capazes de fazer isso, descobrirão que as soluções que andam apoiando representam um passo atrás muito perigoso. Que as marionetes desse jogo anti-popular percebam que ajudam a abrir as portas do seu próprio abismo.

Fonte: Cesar Mangolin

Google e a Manipulação Midiática

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Quando as grandes empresas de internet surgiram, nascidas nas universidades, e não nos grandes grupos de comunicação que já existiam, houve esperança de que elas viessem a contribuir para a consolidação de um ambiente de produção, publicação e troca de informações realmente livre.

Um novo espaço que privilegiasse o indivíduo no lugar do Sistema, ajudando-o a libertar-se do deletério domínio da mídia tradicional, umbilicalmente ligada, de parte a parte, por milhares de tentáculos, aos maiores grupos empresariais privados, que, no mundo inteiro, e em cada país, trabalham para manter o status quo e defender seus interesses, entre eles o de continuar – mesmo depois do surgimento da Rede Mundial de Computadores – a manipular e a explorar, do nascimento à morte, o homem comum.

Website mais visitado do mundo, e a marca mais valiosa do planeta, com aproximadamente 25.000 funcionários, um enorme faturamento e bilhões de usuários, o Google parecia ser uma dessas empresas, voltada, como rezava a missão inicial do  “navegador” criado por Larry Page e Serguey Bryn, para “tornar a informação mundial universalmente útil e acessível.”

A primeira impressão, era a de que o Google buscava, ao menos aparentemente, uma aura de identificação e comprometimento com os “melhores” valores, que se refletia no lema “dont be evil” – “não seja mau”, e outros slogans relacionados de sua “filosofia corporativa”, como “você pode ganhar dinheiro sem fazer o mal”, ou “você pode ser sério sem um terno”.

Uma impressão reforçada – teoricamente – pelo fato do Google não perder  uma oportunidade de declarar seu “marcante” comprometimento com a neutralidade da internet, como diz, quase sempre, seu vice-presidente e “Chief Internet Evangelist”, Vint Cerf, quando afirma  que “não se pode permitir que os provedores de acesso controlem o que as pessoas vêem e fazem online.”

No entanto, o Google, além de ter tido problemas em vários países do mundo no quesito privacidade, sempre esteve estreitamente ligado à comunidade de informações norte-americana, como revelaram jornais como o The Huffington Post , no ano passado, reproduzindo e-mails divulgados pela Al Jazeera America, trocados entre o Presidente da NSA (Agência Nacional de Segurança) dos EUA, o general Keith Alexander, o Presidente do Google, Erick Schmidt, e um dos seus fundadores, Serguey Bryn, nos anos de 2011 e 2012.

Afinal, porque o Google – em uma excelente jogada de relações públicas – por meio do seu presidente Erick Schmidt – fez questão de receber na sede da empresa a Presidente brasileira Dilma Roussef em sua recente visita aos Estados Unidos?

Não apenas porque o Brasil é o quinto país do mundo em usuários de internet ou abriga o único Centro de Desenvolvimento Tecnólógico do Google na América Latina.

Mas também, e principalmente, porque no auge do escândalo de vigilância global da NSA, e dos Five Eyes – a aliança de espionagem anglosaxônica que reúne os EUA, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e o Reino Unido e “parceiros privados” – em que Edward Snowden desnudou ao mundo o gigantesco sistema de monitoramento em massa e a íntima correlação entre agências de informação dos EUA e grandes empresas norte-americanas que dominam o negócio da internet – incluindo, como vimos, o Google – foi Dilma Roussef que liderou a reação mundial aos EUA, suspendendo sua visita de Estado aos Estados Unidos, e aliando-se à Chanceler alemã Angela Merkel, na apresentação e aprovação, na ONU, por 193 países – contra a vontade de Washington – das diretrizes de uma “lei de internet mundial” a resolução sobre “O Direito à Privacidade na Era Digital”.

Diante do gigantismo do Google e do dinheiro que aplica em marketing – incluindo um bilhão de dólares para um fundo de filantropia – é preciso prestar a atenção em detalhes para encontrar provas de seu claro comprometimento com o status quo e as forças mais conservadoras em cada país em que atua.

Talvez a mais evidente delas, que pode passar – e essa é a sua função – desapercebida pela maioria dos leitores, é a presença de uma seção denominada de “Sugestões dos Editores”, que se pode ver no alto da tela, na coluna da direita, da página inicial do Google Notícias.

Dependendo do momento em que estiver olhando, o leitor pode se deparar com chamadas para matérias prosaicas, como dicas de beleza, dietas, etc.

Mas, na maioria das vezes, ele terá chance encontrar, “casualmente”, no mesmo espaço, no Brasil, por exemplo – mas não apenas em nosso país – o mesmo tipo de conteúdo  reacionário, anacrônico e fascista, que intoxica maciçamente a internet brasileira, hoje, o que leva, naturalmente, qualquer leitor mais atento a se perguntar : que raios de “editores” são esses?

Seriam “editores” do Google? Ou “editores” voluntários, organizados em grupos de leitores?

Não. Trata-se de “editores” de veículos de informação “tradicionais”,  que enviam suas “sugestões”, principalmente de artigos de opinião, ao Google, por meio de feeds.

Em suas informações sobre a seção, o Google explica que qualquer veículo pode enviar uma sugestão.

Mas quem escolhe quais e em que ordem essas sugestões irão ser publicadas na primeira página do Google News?

Se fossemos pensar no âmbito exclusivamente empresarial, compreende-se que, procurando fabricar de óculos a relógios, de carros a balões de reprodução de sinal de internet – e ampliando suas atividades para serviços correlatos de fornecimento de banda larga para usuários finais, que acaba de lançar nos EUA – o Google se sinta cada vez mais como parte do ambiente empresarial  tradicional, voltado para ganhar dinheiro e lucrar com o consumidor final – no seu caso, bilhões de consumidores finais – com os quais  estabelece contato, por meio de seu brownser, todos os dias.

Também se comprende que o Google busque boas relações com grandes empresas jornalísticas dos países em que está presente, de onde busca – ainda – a maior parte do conteúdo informativo apresentado a seus usuários por seu motor de pesquisa, principalmente depois que foi proibido de indexar esse conteúdo – por ter se recusado a pagar por ele – , em países como a Espanha.

O problema é que, ao fazer isso – dar destaque às “sugestões dos editores” – um eufemismo para levar  o consumidor a ter acesso destacado e facilitado, no alto de página, ao diktat da mídia tradicional, manipuladora e conservadora que predomina nos países em que atua, o Google está tomando uma atitude política, e também está renegando, descaradamente, o seu “GUIA DE NEUTRALIDADE DA REDE” e os princípios que ele evidencia, quando afirma que:

“Neutralidade da rede é o princípio de que os usuários da Internet devem estar no CONTROLE DO CONTEÚDO QUE ELES VÊEM e de quais aplicações eles usam na internet. A Internet tem operado de acordo com este princípio de neutralidade desde seus primeiros dias… Fundamentalmente, a neutralidade da rede é a igualdade de acesso à Internet. Em nossa opinião, as operadoras de banda larga não devem ser autorizadas a usar seu poder de mercado para discriminar candidatos ou conteúdos concorrentes. Assim como as empresas de telefonia não estão autorizadas a dizer aos consumidores para quem eles devem ligar ou o que eles podem dizer, as operadoras de banda larga não devem ser autorizadas a utilizar seu poder de mercado para controlar a atividade online.”

E também está, na verdade, rasgando os compromissos assumidos com o público, quando do lançamento do seu serviço de  notícias, em 2002, quando afirmou que havia criado um site “altamente incomum” que oferecia um serviço de notícias compilado UNICAMENTE por algoritmos de computador, SEM INTERVENÇÃO HUMANA, ressaltando que para esse serviço não empregava “editores, editores de gestão, ou editores executivos.”

Como os usuários devem estar no controle do que eles vêem? Como “unicamente” por “algoritmos de computador” e sem “intervenção humana” ?

São robôs os “editores” privados  que determinam com suas “sugestões” no alto da coluna da direita, da página inicial do Google News, todos os dias, o que o leitor deve ler,  nos países em que o Google atua, começando pelos Estados Unidos?

Desse ponto de vista, o Google pode não estar empregando “editores”. Mas nem precisa.

Ao menos nessa seção,  o maior site de buscas do planeta preferiu terceirizar o trabalho de escolher o que seus usuários devem ler para os grandes grupos de mídia. Abrindo mão de estabelecer – por meio da internet – um marco na história da comunicação – um novo patamar na relação entre o indivíduo e o universo informacional, para transformar-se, como um mero aparelho de rádio ou televisão, em apenas mais um instrumento de repetição e disseminação do que dizem os maiores jornais e revistas de cada país em que atua. Delegando a essas empresas e jornais – que tem seus próprios compromissos e interesses – o direito de determinar o que eles acham que é mais importante e conveniente – para eles e seus anunciantes, é claro – que os usuários vejam e leiam.

Ainda em suas informações sobre o serviço, o Google diz que é possível para o leitor escolher com que “editores” prefere ter mais “vínculos”, e existe até mesmo uma barra deslizante para que ele possa “personalizar esta fonte de notícias”, mas  a maioria dos usuários tem tempo, conhecimento, ou iniciativa para trabalhar com ela ?

E como fica isso no caso das centenas de milhões de usuários que acessam o Google News sem ter uma conta do Google, ou em “lan houses” e “cybercafés”- como ocorre na maioria dos países mais pobres – ou de seu trabalho, por exemplo?

Eles vão deixar de ler, e de ser influenciados, pelas chamadas dessa seção específica?

Seria mais honesto que – caso se visse a isso obrigado, mesmo considerando-se o público que já acarreta para os portais da mídia tradicional – o Google  colocasse como publicidade claramente identificada, banners dirigidos para o conteúdo desses veículos na primeira página do Google News e cobrasse – claramente – por esse serviço.

Ao disfarçar esse conteúdo, colocando-o no alto da página, mas obedecendo ao mesmo layout, tamanho de letra, etc, das chamadas normais de conteúdo automaticamente indexado, o Google mostra que tem reforçado, ao longo do tempo, de forma sutil, mas reconhecível, uma decisão  clara: a de ficar ao lado do Sistema e não do cidadão, ajudando a reproduzir os esquemas de poder, dominação e manipulação que existem no mercado editorial e jornalístico de cada país, na rede mundial de computadores.

Transformando-se em um instrumento e uma extensão a mais da “fabricação do consenso”, ou do consentimento, de que fala Noam Chomsky e do controle do sistema jornalístico tradicional sobre o homem comum, e contribuindo para estender o poder dos grandes grupos empresariais de comunicação de cada país sobre a opinião pública.

Com seus carros  que andam sozinhos, o Google Earth, o novo serviço que permite chamar do Gmail para telefones, e suas ações no apoio à pesquisa científica e à filantropia, a marca Google pretende ser apresenbtar-se e ser identificada com uma empresa inovadora, que pareça estar voltada, como um farol, para o século XXI e o futuro.

Livrar-se dessa excrescência incômoda, do ponto de vista moral e político, deixando apenas os algoritmos, a busca temática, e o critério de relevância arimética, como mecanismos de escolha do leitor, na primeira página de seu serviço de notícias – isso, sim, faria do Google, ao menos aparentemente, uma marca realmente inovadora do ponto de vista da relação  da mídia com a opinião pública.

Quem sabe, assim, o Google poderia abrir caminho para se transformar em uma companhia verdadeiramente global – da forma como pretende apresentar-se e quer que o público o reconheça – e não – como ele parece ser agora –  uma mera extensão do poder do establishment norte-americano – e de seus prepostos locais – sobre a internet e os seus usuários em todo o mundo.

Fonte: Revista Fórum/Maria Frô

Medo de te perder. É bobagem.

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bear-dress-girl-grass-teddy-Favim.com-246581Meu medo de te perder é maior que o desespero de bater o dedinho do pé em uma quina assassina. É maior que a minha fome monstruosa nos momentos menos prováveis. É maior que minha loucura nos meus dias ruins. Meu medo de te perder é tão forte que me paralisa por alguns segundos, suficientes para notar que esse medo é uma tremenda bobagem.

Sentir medo e não aproveitar o momento pode causar muitos danos. Pode me fazer perder aquele golaço que você fez. Pode fazer com que você não saiba bem como agir e a gente acabe brigando. Pode fazer com que eu perca a razão nos momentos mais tranquilos e pode nos afastar também. E eu tenho muito medo do meu medo de jogar ladeira abaixo tudo que construímos.

Meu medo é tão grande que eu tenho pesadelos com o dia em que não estaremos mais juntos. Ah, vá. Eu sei que não é o fim do mundo e que não é pra tanto, mas quem disse que eu, meu cérebro e meu coração andamos de mãos dadas? Cada um funciona em prol de si mesmo, cada um tem suas nóias e suas certezas… mas o medo permanece.

Eu já tentei terapia, chazinho da vovó, falar com os amigos, sair pela noite caminhando para clarear as ideias… eu mudo de roupa, endereço, estilo, corte e cor de cabelo mas dentro de mim esse sentimento ridículo não muda. Eu tenho medo de te perder pra alguém mais legal, alguém com uma memória melhor e um vocabulário mais rico. Eu tenho medo de não parecer mais interessante pra você e que você se apaixone pela primeira menina interessante pelo caminho. Você não tem esse medo também, meu bem?

Queria derramar todo esse medo em um potinho e guardar pra mostrar pros meus filhos e dizer: “olha, isso aqui é totalmente desnecessário e eu convivi com isso por boa parte da minha vida”. Pra ouvir de resposta um “a gente já sabe, mãe. Fica tranquila porque a gente não tem medo mesmo, não”. Bom, eu espero ter filhos espertos, de preferência com você.

Eu espero ter tempo o suficiente pra viver tudo que quero. Pra gente visitar todos os museus, todas as festas, todos os amigos e toda a família. Porque a gente não seria nada sem as pessoas e os cenários que acompanham a nossa trajetória.

Sabe, pensando bem mesmo, a gente tem muita coisa linda pra viver. E, se não der tempo, a gente vive mais e mais e mais. Porque não vai acabar aqui, sei que isso é coisa explicada pela astrologia, pelos orixás ou pelo amor mesmo. A gente não vai acabar aqui, meu amor. A gente vai viver intensamente tudo que tem pra viver, deixando meu medinho num potinho trancado a sete chaves.

Viver é um risco e o final todo mundo sabe. Então, pra quê ter tanto medo assim?

Fonte: Entre Todas As Coisas

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