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Sininho. Quem tem medo dela?

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downloadE então só se fala de Sininho, a ativista nascida no Rio Grande de Sul e radicada no Rio de Janeiro.

A Globo e a Veja estão massacrando Sininho, e isto leva a crer que a garota tem virtudes.

Sininho, 28 anos, cineasta, é essencialmente uma jovem inconformada com o “sistema”.

Que jovem idealista não estaria, diante das circunstâncias?

Você vê índios sendo mortos, operários se destruindo nas obras da Copa, brasileiros miseráveis sendo removidos de suas casas precárias por causa do Mundial – e vai ficar conformado, se tem sensibilidade social?

A cidade em que vive Sininho ajuda também a entender seu inconformismo: como aturar, sentado no sofá, o desgoverno de Cabral?

“Ah, não vamos para a rua porque Cabral é chapa do Lula”: quem diria isso?

E então os jovens vão às ruas e são recebidos pela polícia predadora de Cabral, sob a omissão de um governo federal que não podia mexer nos brios de seu aliado.

Ora, condenar Sininho é farisaico.

Ela representa o espírito do tempo. Seus pais, segundo ela, participaram da fundação do PT.

Mas para ela, e para muitos outros jovens da mesma geração, o PT acabou por se transformar no sistema.

Ou você quer que Sininho veja Lula abraçado a Maluf e Sarney ou Dilma comprometida com os ruralistas e se sinta representada?

Querer transformar os black blocs em terroristas é uma falácia, um gesto cínico e indefensável.

Que a direita faça isso, entende-se por seu apego a privilégios e medo de tudo que represente oposição a regalias ancestrais.

Mas o PT?

As acusações são bizarras. Eles são atacados porque são “mascarados”. E daí? Tentaram matar uma família num carro quando tudo que ocorreu foi que um motorista assustado tentou passar com seu Fusca baixo sobre um colchão em chamas.

Mataram o cinegrafista e conseguiram seu primeiro cadáver.

Ora, foi um acidente lastimável, triste, mas foi exatamente isto: um acidente. Ninguém pegou uma arma e atirou contra Santiago.

Coube a Sininho mesma trazer um pouco de lógica ao debate ao perguntar: por que a Band não deu um capacete para proteger seu cinegrafista? Em áreas conflagradas mundo afora, isso acontece: dar proteção aos jornalistas que cobrem protestos perigosos.

O DCM é visceralmente antiviolência. Somos franciscanos na essência. Andamos com passarinhos nos ombros, e ficamos maravilhados com o Papa Francisco, nosso ídolo. Gandhi e Luther King estão em nossos corações.

Agora: a violência nos protestos do Rio é obra da polícia. Em algum momento, os black blocs entraram em cena para proteger os manifestantes.

Eles são uma reação à truculência policial.

Não fosse a violência policial, altamente estimulada pela mídia com sua pregação contra os “vândalos” e “baderneiros”, eles provavelmente nem tivessem surgido no Brasil.

Agora mesmo: a direção da empresa jornalística alemã Deutsche Welle manifestou formalmente à embaixada brasileira na Alemanha seu protesto contra as cacetadas que seu correspondente levou no protesto em que morreu Santiago.  Ninguém prestou atenção nisso, exceto, modéstia à parte, o DCM. O relato do correspodente conta tudo: uma manifestação pacífica virou um campo de guerra por causa da polícia.

Repito: por causa da polícia.

E em vez de dar um basta à violência policial, os crucificados são os black blocs, por pura conveniência e oportunismo político.

Vamos encarar os fatos: o PT detesta os black blocs por dois motivos. Um: eles não obedecem ao partido. Sequer respeitam. Dois: os protestos podem por em risco, na visão petista, a eleição fácil de Dilma.

O segundo item é uma fantasia. Dilma, com ou sem black blocs, caminha para uma reeleição fácil, dada a fragilidade excepcional da oposição.

Não surgiu, com envergadura, partido nenhum que represente uma nova ordem social menos injusta. É uma tremenda sorte para o PT — e um enorme azar para o país — que do lado de lá estejam fósseis políticos como Aécio, Serra, FHC, Marina, Eduardo Campos etc. Um partido envelhecido como o PT parece jovem diante de rivais encarquilhados.

A não ser que o PT se reinvente, o que parece difícil, no futuro o espaço estará aberto a um partido que realmente interprete a raiva das ruas contra tantos absurdos.

A mensagem de Sininho, no fundo, é esta: o Brasil tem que ser melhor do que é.

Como discordar?

Fonte: Diário do Centro do Mundo

O Brasil vai parar em 2014? Quem pretende isso?

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Germany Punks vs PutinMovimentos sociais que partem de premissas corretas, ladeados por anarquistas, black blocs e os reacionários de sempre, integram a fauna diversa e barulhenta que promete agitar as ruas no Mundial

Reportagem de capa da edição 785, publicada originalmente com o título #vaiterprotesto

A quatro meses da Copa, as mobilizações contra o Mundial de Futebol continuam a desafiar as diferentes instâncias de governo envolvidas nos preparativos. Moradores atingidos por obras, militantes de movimentos sociais e partidos, jovens organizados pela internet e a classe média amedrontada pelo perigo bolivariano se misturam em uma rede de indignados, mais de seis anos após o País ser escolhido para sediar o evento esportivo. Um ensaio dos protestos ocorreu no último sábado 25 em oito capitais. Em São Paulo, uma manifestação convocada pelo Facebook por um perfil apócrifo reuniu cerca de 2 mil pessoas e terminou com as costumeiras depredações promovidas por black blocs, mais de 160 detidos e um jovem baleado, a vítima mais recente do despreparo das forças policiais para lidar com protestos. Nas demais cidades, a adesão foi menor e os atos transcorreram sem incidentes graves. Mesmo assim, as autoridades sentiram o golpe.

Em viagem oficial ao exterior, Dilma Rousseff convocou uma reunião de emergência com os ministros do Esporte, da Justiça e da Defesa. A preocupação é de assegurar a paz nos jogos, mas os manifestantes temem que as polícias estaduais, com o beneplácito da União, insistam na repressão em vez de abrir canais de diálogo com a sociedade civil. As críticas se concentram nos vultosos gastos públicos, que beiram os 30 bilhões de reais, e nas intervenções urbanas, que, em larga medida, deixaram de lado a preocupação em estender os benefícios da Copa a uma parcela maior da sociedade.

Na frente do Brasília Shopping, um ato com apenas 50 manifestantes demonstrava diferentes faces anti-Copa: black blocs, grupos da “esquerda revolucionária”, coletivos de mulheres e direitos humanos, jovens travestidos e carnavalizados com um discurso de moralidade política e combate à corrupção. Um homem tatuado, vestido vermelho e máscara da presidenta incorporava a personagem “Dilmadura”. Desfilava com desenvoltura entre as câmeras de fotógrafos e da tevê, mas se recusava a conceder entrevistas. Enquanto os militantes de esquerda afinavam o discurso contra o aspecto excludente da Copa, um servidor público, identificado apenas como Fábio, repetia o bordão da ala conservadora: “Não tenho ligações com partidos, sindicatos ou entidades de classe. Falo apenas em meu nome e em nome do povo brasileiro, que está cansado da corrupção que assola este país há 500 anos”. E o que a Copa tem a ver com isso? “Tudo, meu amigo. Nunca se roubou tanto dinheiro como agora.”

Sob o vão livre do Masp, em São Paulo, uma fauna semelhante se aglomerou no sábado 25. Algumas dezenas de manifestantes, organizados em torno de um coletivo batizado como “Se Não Tiver Direitos Não Vai Ter Copa”, montaram barracas. O estudante Vitor Araújo, 19 anos, leu um manifesto contra o evento. Ele foi atingido pela PM durante um protesto no último 7 de setembro, quando perdeu a visão de um olho. O coletivo era formado por organizações de esquerda pequenas, como o Fórum de Saúde e a Anel, entidade estudantil ligada ao PSTU, além de militantes autônomos. Ao lado, senhoras com os enfadonhos narizes de palhaço, ativistas de direitos dos animais e manifestantes contrários à verticalização do Centro da cidade.

Diante do quadro disperso e heterogêneo, os militantes de esquerda tentavam liderar o protesto. Quem o guiou, porém, foram os adeptos do black bloc, despertados da letargia dos últimos meses. Apesar dos diferentes perfis de manifestantes, os adeptos da tática do quebra-quebra foram os únicos a ganhar atenção nos dias seguintes, no noticiário e nas redes sociais. Na Praça da República, um bloc levou chutes e pauladas de espectadores de um show em comemoração aos 460 anos de São Paulo. O Fusca do serralheiro Itamar Santos pegou fogo ao tentar atravessar uma barreira dos manifestantes, quando um colchão em chamas ficou preso ao carro. As cenas do velho Fusca consumido pelo fogo viraram uma arma de quem combate as manifestações na internet. Uma campanha na rede mundial de computadores para arrecadar fundos para Santos comprar um novo carro intitulada #vaiterfusca arrecadou 7 mil reais em quatro dias.

As ações dos blocs foram a justificativa para as mais de 160 prisões naquela noite, o maior número desde junho do ano passado. O estoquista Fabrício Chaves, 22 anos, acabou baleado pela polícia ao resistir à prisão. Os policiais alegam ter disparado após Chaves sacar um estilete. O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, defendeu a ação da PM. “Não acho que seja manifestante quem anda com estilete, com materiais supostamente explosivos”, afirmou, sem tecer maiores comentários sobre a proporcionalidade da reação.

Esse ensaio de manifestação deixou claro ao menos uma coisa: o grito “não vai ter Copa” é muito mais uma palavra de ordem do que um objetivo. Embora tenham posições políticas distintas, dezenas de manifestantes ouvidos por CartaCapital concordam que o torneio não deve ser impedido com protestos. “Para mim, o ‘não vai ter Copa’ tem outro significado: ‘Não vai ter Copa sem luta’. Não dá para aceitar tanta lambança de forma passiva”, diz o historiador João Guilherme, presente no protesto em Brasília. “Pode ter Copa, mas vai ser difícil entrar no estádio e se locomover. E a responsabilidade é do governo, que decidiu fazer uma Copa em detrimento do que precisamos”, diz Wilson Honorio, militante do movimento negro Quilombo Raça e Classe, participante em São Paulo.

Apenas os organizadores do ato paulistano parecem acreditar sinceramente na possibilidade de interromper os jogos. “Para tanto, seria necessário o apoio popular em todo o Brasil. Em junho de 2013, o MPL mobilizou a população e reduziu a tarifa”, escreve o grupo “Contra Copa 2014” em entrevista via internet. Por medo de perseguição, eles preferem não se identificar.

Para conseguir conquistas com essas mobilizações, e não ser atropelado por manifestantes de direita, o Comitê Popular da Copa de São Paulo busca pautas concretas, chamadas de “nossos vinte centavos”. Entre as reivindicações estão a garantia do trabalho de ambulantes durante o Mundial, a revogação da lei que concede isenção fiscal à Fifa, auditoria popular da dívida pública e até a desmilitarização da polícia. “Não vamos nos colocar de forma genérica, como essa campanha ‘contra a corrupção’. Vai ser uma linha à esquerda,” diz Marina Mattar, jornalista e integrante do comitê. Em todo o Brasil, 12 comitês discutem constantemente uma pauta conjunta.

A seção paulista foi formada em 2011 por diversas organizações e movimentos sociais, além de militantes autônomos. Seus apoiadores reúnem de sem-teto a grupos de teatro e anarquistas. No Rio de Janeiro, eles coordenaram manifestações amplas há três anos, entre elas a resistência contra a demolição de uma escola pública, do Museu do Índio e do Estádio de Atletismo Célio de Barros, todos no entorno do Maracanã.

A mobilização carioca mantém estreitas ligações com urbanistas, professores e pesquisadores de universidades locais, e produz dossiês sobre as violações aos direitos humanos, como as remoções forçadas de moradores por conta das obras da Copa e das Olimpíadas, além de estudos que alertam para a tendência de uma cidade mais desigual e a segregação de pobres.

“Em qualquer lugar do mundo, os megaeventos esportivos são acompanhados de uma série de intervenções urbanas que mudam a cara das cidades-sede. O problema é que, no caso do Brasil, essas intervenções favorecem a elitização de certos espaços e levam à realocação dos pobres nas áreas periféricas”, afirma Orlando Santos Júnior, professor da UFRJ, pesquisador do Observatório das Metrópoles e integrante do comitê carioca. “Há um clima de ‘vale tudo’ pela honra de sediar um evento desse porte e atrair investimentos, mesmo quando os governos passam por cima dos direitos da população, como ficou explícito no caso das remoções.” Estima-se a existência de mais de 150 mil moradores realocados. O governo federal nunca divulgou um balanço nacional dos desalojados.

Os protestos a favor dos afetados pelas obras não vêm de agora. “Em 2009, quando o Rio foi escolhido como sede das Olimpíadas de 2016, protestamos na porta do Copacabana Palace. Tivemos a experiência ruim dos Jogos Pan-Americanos, que não deixaram nenhum legado para a cidade e atropelaram os direitos da população mais pobre. Não queríamos deixar isso acontecer de novo”, diz Inalva Mendes Brito, professora da rede pública e moradora da Vila Autódromo, comunidade ameaçada de remoção. “Há 20 anos tentam retirar os pobres da Barra da Tijuca. Após o Pan, a pressão aumentou. Agora, a desculpa é a construção da TransOlímpica.”

Em 2012, cerca de 2 mil manifestantes estiveram no evento “Copa pra Quem?”, no Centro de São Paulo. No fim do ano passado, o MPL, a Marcha da Maconha e a Frente de Luta por Moradia, entre outros, participaram da Copa Rebelde dos Movimentos Sociais. Agrupamentos sem ligação com o comitê também reclamaram. O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto ocupou e fez protestos em oito estádios. Em 2011, cerca de 2 mil militantes do MTST tomaram a sede do Ministério do Esporte.

Alguns manifestantes temem a escalada da violência estatal até o início dos jogos e mudanças legais que possam embasá-la. Uma delas é a lei para “aumentar a segurança” durante o evento, de autoria do senador e atual ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB-RJ). O projeto tipifica como terrorismo “provocar ou infundir terror ou pânico generalizado” com penas de até 30 anos de prisão. A proposta prevê ainda punição para quem “ofender a integridade corporal ou a saúde de membro de delegação, com o fim de intimidá-lo ou de influenciar o resultado da partida de futebol”. E restringe o direito a greve de diversas categorias profissionais no período do Mundial. Uma manifestante resume o medo da lei: “Não vale a pena protestar se for para eu ficar 30 anos na cadeia”. O projeto aguarda votação no Senado.

Um decreto do Ministério da Defesa, publicado em dezembro de 2013, prevê a atuação das Forças Armadas em “Operações de Garantia da Lei e da Ordem” para “preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patrimônio” e prevenir a “sabotagem nos locais de grandes eventos”. A presidenta pode requerer o apoio do Exército quando “o esgotamento (das forças de segurança) decorrer de movimentos contestatórios”. Segundo o ministro Celso Amorim, a ação visa unificar os procedimentos das três Forças Armadas, e não tem relação direta com os protestos.

O governo federal apega-se a pesquisas internas, segundo as quais a maioria da população quer a Copa, está feliz com a sua realização no Brasil e acha que ela trará benefícios. Aposta, portanto, em manifestações pequenas, com pouca adesão. “Indicadores mostram que a maioria dos brasileiros, apesar de querer mais saúde e mais educação, também quer a Copa do Mundo. Não é a Copa ou a saúde, é a Copa e a saúde”, diz um assessor do Planalto. “Os integrantes do ‘não vai ter Copa’ são franca minoria, 1%.”

O Palácio do Planalto dá como certa, porém, a ocorrência de manifestações barulhentas e violentas. Até por isso, não está disposto a negociar previamente com os movimentos. Para o governo, não haveria o que discutir, pois o espaço para o diálogo não existe quando uma das partes simplesmente rejeita o evento.

A estratégia de segurança será a de evitar depredações. O Ministério da Justiça vai coordenar um plano de trabalho em parceria com as secretarias estaduais de Segurança Pública, mas o governo federal pretende deixar claro que cuidar das polícias não é sua atribuição. “Quem comanda a polícia são os estados, não somos nós. Eles têm autonomia, segundo a Constituição. O ministro da Justiça não pode baixar em São Paulo e dizer como os policiais devem se comportar”, pondera o assessor presidencial. A União se limitará a colocar a Força Nacional e a Polícia Federal à disposição. As Forças Armadas só serão acionadas em situações excepcionais.

Estimulados diretamente ou não por Brasília, os movimentos pró-Copa também se intensificaram. Para conter o #nãovaitercopa, difundiu-se a campanha #vaitercopa, adotada até pela presidenta. Em seu mais recente encontro com o presidente da Fifa, Joseph Blatter, no intervalo do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, Dilma Rousseff voltou a classificar o torneio de “a Copa das Copas”. Em sua passagem por Cuba, a presidenta voltou a criticar os manifestantes: “Não perceber a importância da Copa é visão pequena”.

Dirigentes do PT negam uma ação coordenada. “Não formulamos campanha alguma. O #vaitercopa foi um teaser de momento, usado pela nossa equipe nas redes sociais”, diz José Américo, presidente da Câmara de Vereadores de São Paulo e secretário nacional de Comunicação do partido. “Em nenhum momento pensamos em fazer uma contraposição às ruas. As manifestações são legítimas e é até salutar que ocorram, sobretudo para fiscalizar os gastos públicos.”

A estratégia da legenda, segundo Américo, é “priorizar o esclarecimento” da população sobre a importância do Mundial e desfazer “equívocos” que circulam na internet. “Vira e mexe nos deparamos com dados inflacionados ou informações enviesadas, que tratam financiamentos do BNDES para empreendimentos privados como gasto público.”

Uma das pesquisas recorrentemente citadas pelo governo é um estudo da consultoria Ernst & Young em parceria com a Fundação Getulio Vargas, que previa 142 bilhões de reais a mais na economia entre 2010 e 2014, além da geração de 3,63 milhões de empregos.

Os benefícios não devem servir de justificativa para passar por cima dos direitos da população, rebate Orlando Júnior, da UFRJ. O urbanista ainda critica o governo por “homogeneizar e desqualificar” os manifestantes. “Agora, todo mundo é visto como direitista ou instrumentalizado pela oposição, como se a maioria dos participantes dos protestos não fosse de militantes de esquerda, muitos deles com histórico de lutas com o PT. Seria mais inteligente aprender a ouvir, abrir canais de diálogo e desenterrar a reforma do nosso caduco sistema político.”

Os manifestantes prometem continuar mobilizados até o fim do evento. O MTST, movimento que tem levado o maior número de militantes às ruas de São Paulo desde junho, deve reforçar os protestos a partir de 13 de maio. Páginas apócrifas na internet conclamam novos protestos. Uma efeméride pode dar força aos protestos na capital paulista. Em 19 de junho, completará um ano que o prefeito petista Fernando Haddad e o governador tucano Geraldo Alckmin anunciaram a redução da tarifa de ônibus e metrô, a mais clara vitória das passeatas do ano passado.

Os governantes levam uma vantagem desta vez. Ao contrário de junho, quando a voz das ruas surpreendeu a todos, há informações suficientes sobre o mal-estar e as reivindicações da população, ou de uma parte dela. Repetir os erros de 2013, principalmente a repressão desproporcional, só tende a esquentar a panela de pressão. No caos, os grupos organizados perderiam espaço para a turma “contra tudo que está aí”. E estes, a história ensina, costumam, no fundo, defender as piores opções.

Fonte: Carta Capital

Política Econômica: por que o Brasil acerta ao investir em Cuba?

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b47e5a14-d436-4863-b916-68a6795b3386Causou certa indignação em determinados setores da sociedade brasileira a inauguração do porto de Mariel, em Cuba, na segunda-feira 27, com a presença de Dilma Rousseff. O espanto se deu por que a obra foi erguida graças a um financiamento do BNDES, que data ainda do governo Lula. Atribui-se o investimento a uma aliança ideológica entre os governos petistas e a família Castro, responsável pela ditadura na ilha. É um equívoco ver o empréstimo desta forma. Trata-se de um ato pragmático do Brasil.

O porto de Mariel é um colosso. Ele é considerado tão sofisticado quanto os maiores terminais do Caribe, os de Kingston (Jamaica) e de Freeport (Bahamas), e terá capacidade para receber navios de carga do tipo Post-Panamax, que vão transitar pelo Canal do Panamá quando a ampliação deste estiver completa, no ano que vem. A obra, erguida pela Odebrecht em parceria com a cubana Quality, custou 957 milhões de dólares, sendo 682 milhões de dólares financiados pelo BNDES. Em contrapartida, 802 milhões de dólares investidos na obra foram gastos no Brasil, na compra de bens e serviços comprovadamente brasileiros. Pelos cálculos da Odebrecht, este valor gerou 156 mil empregos diretos, indiretos e induzidos no País.

A obra “se pagou”, mas o interesse do Brasil vai além disso. Há quatro aspectos importantes a serem analisados.

O primeiro foi exposto por Dilma no discurso feito em Cuba. O Brasil quer, afirmou ela, se tornar “parceiro econômico de primeira ordem” de Cuba. As exportações brasileiras para a ilha quadruplicaram na última década, chegando a 450 milhões de dólares, alçando o Brasil ao terceiro lugar na lista de parceiros da ilha (atrás de Venezuela e China). A tendência é de alta se a população de Cuba (de 11 milhões de pessoas), hoje alijada da economia internacional, for considerada um mercado em potencial para empresas brasileiras.

Esse mercado só será efetivado, entretanto, se a economia cubana deixar de funcionar em seu modo rudimentar atual. Como afirmou o subsecretário-geral da América do Sul do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Antonio José Ferreira Simões, o modelo econômico de Cuba precisa “de uma atualização”. O porto de Mariel é essencial para isso, pois será acompanhado de uma Zona Especial de Desenvolvimento Econômico criada nos moldes das existentes na China. Ali, ao contrário do que ocorre no resto do país, as empresas poderão ter capital 100% estrangeiro. Dono de uma relação favorável com Cuba, o Itamaraty está buscando, assim, completar uma de suas funções primordiais: mercado para as empresas brasileiras. Não é à toa, portanto, que o Brasil abriu uma nova linha de crédito, de 290 milhões de dólares, para a implantação desta Zona Especial em Mariel.

Aqui entra o terceiro ponto, a localização de Mariel. O porto está a menos de 150 quilômetros do maior mercado do mundo, o dos Estados Unidos. Ainda está em vigor o embargo norte-americano a Cuba, mas ele é insustentável a longo prazo. “O embargo não vai durar para sempre e, quando cair, Cuba será estratégica para as companhias brasileiras por conta de sua posição geográfica”, disse à Reuters uma fonte anônima do governo brasileiro. Tendo em conta que a população cubana ainda consistirá em mão de obra barata para as empresas ali instaladas, fica completo o potencial comercial de Mariel.

Há ainda um quarto ponto. Ao transformar Cuba em parceira importante, o Brasil amplia sua área de influência nas Américas em um ponto no qual os Estados Unidos não têm entrada. A administração Barack Obama é favorável ao fim do embargo, como deixou claro o presidente dos EUA em novembro passado, quando pediu uma “atualização” no relacionamento com Cuba. Ocorre que a Casa Branca não tem como derrubar o embargo atualmente diante da intensa pressão exercida no Congresso pela bancada latina, em sua maioria linha-dura. No vácuo dos EUA, cresce a influência brasileira.

Grande parte das críticas ao relacionamento entre Brasília e Cuba ataca o governo brasileiro por se relacionar com uma ditadura que não respeita direitos humanos. Tal crítica tem menos análise de política externa do que ranço ideológico, como prova o silêncio quando em destaque estão as relações comerciais do Brasil com a China, por exemplo. Não há, infelizmente, notícia de um Estado que paute suas relações exteriores pela questão de direitos humanos. Se a regra fosse essa, possivelmente o mundo não seria a lástima que é.

Soma-se a isso o fato de que manter boas relações com Cuba é uma prática do Estado brasileiro, não do governo atual. As relações Brasília-Havana foram reatadas em 1985 e têm melhorado desde então. Em 1992, no governo Fernando Collor, houve uma tentativa de trocar votos em eleições para postos em organizações internacionais. A prática, como a Folha de S.Paulomostrou em 2011, continuou no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), sob o qual o Brasil também fechou parcerias e intercâmbios com Cuba.

De fato, em 1998 o então chanceler de FHC, Luiz Felipe Lampreia, se encontrou com um importante dissidente cubano, Elizardo Sánchez, algo que o governo brasileiro parece muito distante de fazer. Pode-se, e deve-se, criticar o fato de o Planalto sob o PT não condenar publicamente as violações de direitos humanos da ditadura castrista, mas não se pode condenar o investimento no porto de Mariel. Neste caso, prevaleceu o interesse nacional brasileiro.

Fonte: Carta Capital

Acorda Eduardo… a Marina Silva mais te atrapalha e ajuda Dilma. Aécio, nem se fala…

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A presença de Marina Silva produz efeitos colaterais que ameaçam isolar o governador pernambucano no páreo da eleição presidencial

Que tente tapar o sol com a peneira quem quiser tentar. Inútil. Não é possível mais esconder as trombadas entre Eduardo Campos e Marina Silva e as consequências derivadas desse choque.

A relação entre os dois é um modelo novo de coligação entre um partido existente, o PSB, e um partido inexistente, a Rede Sustentabilidade. Por isso, Marina não é apenas ornamentação. Tem vez e voz.

A melhor imagem para explicar a aliança é a maternidade. O PSB seria a “barriga de aluguel”, onde está em gestação a Rede. A “barriga” de Marina, puxando votos, representa o ventre onde cresce a candidatura de Eduardo Campos.

As pesquisas de opinião dão indícios de que ela tem condições de transferir para Eduardo Campos parte de votos prometidos, até então, a ela. É possível considerar, pela última pesquisa Ibope, que os 6 pontos de crescimento (de 4% para 10%) do pré-candidato do PSB resultaram da retirada do nome dela da disputa. É, porém, mais um caso de suposição do que de ciências exatas.

Há sinais mais fortes que a transferência de votos. A presença de Marina provoca efeitos colaterais desastrosos para Eduardo Campos. Pode, por exemplo, isolar a quase solitária candidatura do governador de Pernambuco à Presidência da República. Ele precisa de aliados, de recursos e de tempo na televisão. O PSB, sem alianças, dispõe de 1m40s do horário eleitoral.

Nesse “casamento” com Marina, inesperado, Campos é quem faz a costura política. Para dentro e para fora. Presidente do PSB, ele tem poder incontestável na agremiação.

Marina descostura com a prática do excesso de zelo. É a guardiã da pureza política inalcançável.  Ela já tem um boletim de ocorrências negativas grande para tão pouco tempo de atuação como parceira e virtual candidata à Vice-Presidência.

Desferiu o primeiro ataque contra Ronaldo Caiado (DEM), identificado como “inimigo histórico”. Recém-chegada ao PSB, ela não sabia que provocaria com a declaração o rompimento de uma aliança eleitoral que Campos costurava em Goiás. Mas não parou por aí. Bloqueou a aproximação do PSB com o PDT, partido que, na definição dela, conduz o Ministério do Trabalho “como um feudo”.

Na segunda-feira 4, criou atritos numa reunião, em São Paulo, para definir a estratégia política no maior colégio eleitoral do País. Ela defendeu a necessidade de ter um candidato próprio no estado. Tinha na bolsa o nome do deputado Walter Feldman.

Em São Paulo, o PSB trabalha, porém,  pela reeleição do tucano Alckmin. E assim será. Marina perdeu. Há, inegavelmente, nessa aliança uma contradição entre o que parece ser novo com o que parece ser velho.

Campos é um político clássico. Não pede a carteira de identidade ao filiado. Foi ao Piauí para consolidar o apoio do ex-senador Heráclito Fortes, ex-DEM e agora do PSB, um político com feitos negativos que dispensam apresentação.

Não é possível, porém, imaginá-la dando as boas-vindas a Heráclito com um sorriso constrangedor ou, muito menos, com um beijinho amigável nas descomunais bochechas dele. Pelo apoio de Heráclito, Marina nunca iria ao Piauí.

Fonte: Carta Capital

Quem acordou, o Brasil ou o monstro?

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O monstro acordou

Fazer política no Brasil é ficar muitos anos sem conversar com o povo, descobrir as favelas só para pedir votos. Vai continuar sendo assim?

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Se você entrasse num bar de periferia há alguns anos e perguntasse o que eles acham do Movimento Sem Terra ou das “invasões”, como são comumente chamadas, os fregueses do bar, em sua maioria, diriam que era uma pouca vergonha e alguns até desafiariam o movimento a entrar em suas casas, ironicamente um barraco de madeira de dois metros quadrados.

De uns anos pra cá, quando se trata de qualquer movimento social, as conversas mudaram, o cidadão começou a prestar mais atenção no que anda rolando, com vários meios de comunicação agregados, como blogs, redes sociais etc. A notícia tem vários pontos de vista, todo mundo que tem um celular é um repórter, todo mundo que digita mensagens também pode escrever um texto com sua opinião.

Já presenciei cenas em que o ponto de vista de um senhor de 50 anos foi transmitido pelo seu neto, que viu na internet o fato e comentou com o avô.

E, quem diria, as conversas tão exaltadas do governo, segundo quem não existe mais miséria no Brasil, seriam um dia contestadas, não por intelectuais que conhecem de números e índices, mas sim pelo próprio povo que o elegeu.

Os protestos não se dão por um só motivo, muita gente sabe disso, mas a fragmentação do que querem é ainda maior. Uns lutam por hospital, outros pela reprovação da PEC 37, e a maioria pela moralização da política brasileira.

Vamos aos fatos na crua realidade do dia-a-dia. O que adianta ter carro, se as vielas não tem passagem, se chegar a qualquer lugar virou um desafio infinito de paciência? O governo diz que somos todos pedestres, pede respeito um ao outro, mas depois de uma hora no trânsito todo mundo vira um canalha.

São Paulo tem lindas pontes para exibir seu congestionamento; lindos prédios para você ver enquanto caminha a pé na marginal; nossos moradores têm medo de assalto, alergia a poluição. Fazemos brigas dignas de UFC ao vivo em qualquer lugar. Ter ponte igual à Europa não quer dizer que os postos de saúde tenham pelo menos algodão.

É fácil se tachar e ser tachado de classe média e não poder pagar a luz de casa, não poder ter tevê a cabo, pois o arroz subiu de 6 para 10 reais em meses.

A classe média engorda os protestos, pois tudo que paga também não funciona – os planos de saúde marcam consultas para dois meses com especialistas. Está quase no padrão SUS.

A bolha falsa do progresso estourou, a caixa de Pandora se abriu, e isso é visível quando você vê o tiozinho que é fanático por futebol dizendo que esses gastos com estádio são “tiração” demais, pois sua cirurgia foi remarcada para o ano que vem, e os exames só valem mais três meses.

O monstro acordou, ninguém pode mais para dormir, tudo tem um limite e o nosso já chegou. Eles mentem na tevê, a gente se liga na internet, eles falam de pesquisas, a gente ouve as vozes das ruas, eles mudam de opinião, a gente desliga o rádio e vai pra rua ouvir algo mais contundente.

A balela em defender o patrimônio está caindo, não adianta morar bem e não poder abrir a janela.

Agora ninguém fecha mais, somos mais do que a luta por moradia, pelo direito de ir e vir, não podem nos tachar por classe social, pois todo mundo tá junto nessa. A cidade é nossa e essa briga também.

Os gritos são contra a roubalheira, contra apanhar de fardado por querer levar o pão para casa, por querer vender CD’s nas ruas – chega de levar tiro por estar no bar jogando sinuca.

Todos parecem querer olhar bem na cara do sistema e dizer: Nem sua mídia tá mais do seu lado, o cenário que eles vão encontrar aqui no ano da Copa é parecido com The Walking Dead, pois todos nós estamos na ilha de Lost.

Quem em qualquer periferia consegue manter a família do jeito que tá? No centro das cidades, quantas empresas fechando, quantos pequenos comerciantes desistindo, pois todo tipo de mercadoria vem mais barato do estrangeiro?

Tenho dezenas de exemplos de amigos que sempre trabalharam duro e, agora, sem saída, estão vendendo tudo que têm, tentando correr atrás de outra possibilidade de manter a sua família. Mas, se o progresso era tão festejado, onde ele está?

Nas passeatas, a força da multidão mandou baixarem as bandeiras de partido. Os que caminham com lenço no rosto não se identificam mais com nada que tenha siglas. Suas falas são contundentes.

Estamos todos cansados de pagar, de apanhar, de cheirar fumaça, de ser trânsito, de perder celular no farol, de ser maltratado por todo mundo que tem um uniforme, de ser convencido a ter e não a ser uma pessoal melhor.

A resposta do governo é a de sempre – bala de borracha para o aluno que nunca teve material digno na escola, gás lacrimogêneo para o pai de família que não teve sequer inalação para o filho no posto de saúde, spray de pimenta para o camelô que luta o dia todo e viu que a marmita já estava azeda.

O que todos querem? É só ler as placas: hospitais padrão Fifa. Mas fazer política no Brasil é ficar muitos anos sem conversar com o povo, descobrir as favelas só para pedir votos.

O povo quer alguém que, ao descer as vielas, saiba andar nelas, quer ver o terno cheio de poeira, o colarinho aberto, o suor na pele não tão lisa, não tão branca, quer um deles com cara de nós.

O povo não quer pedir mais nada, quer exigir, por isso foi para as ruas, que são deles, que são nossas, mas onde não mais levamos nossos filhos para brincar.

Um sonho era ver brasileiros usando a bandeira não somente para os jogos.

Talvez tenhamos um plano mesmo para gerir esse país, sem que tenhamos que mudar as cores dos uniformes das escolas a cada troca de prefeitura, um país que não mude as gestões das subprefeituras a cada troca de vereador.

Talvez um país onde a escola particular seja igual à pública, onde o convênio e o SUS são parecidos em qualidade, onde a segurança não precise ser privada.

Ainda se tem muito para mudar, muito para exigir, e nossos motivos para protestar nunca foram tantos.

*Ferréz é escritor e fundador da 1DaSul, grupo que promove eventos e ações ligadas ao hip-hop no Capão Redondo, em São Paulo

Fonte: Carta Capital

A oportunidade que o PT perdeu – por Mino Carta

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O Brasil vive um momento de desencontros e esperanças, nem todas bem-postas. Primeiríssima entre estas a da mídia nativa, chega a sustentar que as atuais manifestações de rua se assemelham àquelas pelo impeachment de Fernando Collor. Má informação e delírio são alguns dos atributos do jornalismo pátrio. Quando a Globo mobilizou uma juventude carnavalizada para solicitar a condenação do presidente corrupto, o próprio já havia sido atingido fatalmente pelas provas das ligações entre o Planalto e a Casa da Dinda, levantadas pela IstoÉ. Seu destino estava selado com ou sem passeatas. No mais, é do conhecimento até do mundo mineral que imaginar a derrubada de Dilma Rousseff naufraga no ridículo.

Impávida, a mídia nativa, depois de recomendar repressão enérgica contra os baderneiros, percebeu a possibilidade de enganar os incautos ao sabor da sua vocação e tradição, e agora afirma com a devida veemência o caráter antigovernista das manifestações. Mira-se logo nas próximas eleições. Difícil mesmo, se não impossível por enquanto, distinguir o que move os manifestantes. Certa apenas a demanda da periferia no país da casa-grande e da senzala. Aludo à maioria dos brasileiros que usam ônibus e desconhecem um certo Estado do Bem-Estar Social, para sofrer as consequências de sistemas de saúde, educação, transporte coletivo de péssima qualidade. Sem contar o saneamento básico.

No mais, há espaço nas ruas para as motivações mais diversas, desde o prazer da festa até a expectativa de quem aspira a alguma mudança sem saber como se daria e com qual profundidade. Desde quem se aproveita da confusão para quebrar vidraças e invadir lojas até os netos e bisnetos dos burguesotes das marchas da família, com Deus e pela liberdade, que invocavam o golpe em 1964. Todos juntos, como torcidas uniformizadas, mas ao acaso, sem liderança. Abrem-se situações expostas a qualquer desfecho e mais uma certeza é a de que ninguém consegue controlar as ruas.

Entende-se. Igual ao abismo que separa ricos e pobres há outro entre a nação e as instituições ditas democráticas. Entre Legislativo, Judiciário e Executivo e esta massa empurrada em boa parte por intenções nebulosas. Avulta, no quadro, a ineficácia do Congresso, entregue aos interesses particulares de deputados e senadores, donde inabilitados a influenciar o destino do protesto popular e, cada qual, o comportamento dos seus eleitores.

Pergunto aos meus inquietos botões o que se daria hoje se o PT tivesse mantido as posições anteriores à eleição de Lula, quando no centro de sua doutrina instalava-se a negativa peremptória à modernização do atraso. Hoje vemos o PT presa dos compromissos da chamada governabilidade, disposto às piores concessões e irremediavelmente esquecido das consignas de outrora. O PT montou a ratoeira e ali colocou o queijo para atrair os ratos. Ao cabo, ele próprio gostou do queijo e caiu na armadilha. Não fosse isso, respondem soturnos os botões, neste instante cavalgaria o agito das ruas. Seria o partido que lidera antes mesmo de controlar.

O governo não discrepa do PT, a despeito dos índices elevados de aprovação, conquanto em leve diminuição e à espera das consequências das manifestações destes dias. Às vezes porta-se como se o complexo do vira-lata, ao qual Lula costuma aludir, tomasse conta das suas ações, inclusive no confronto com a mídia que o ataca e denigre, e também com uma base pretensamente aliada, predadora voraz. Faltam ao lado da presidenta tanto uma figura capaz de operar politicamente, como se diz, quanto parceiros mais competentes e menos comprometidos em alguns ministérios. Sem esquecer que os problemas do País não se resolvem a partir de uma lógica meramente tecnocrática.

Seria trágico, e não hesito ao recorrer ao adjetivo, desperdiçar 12 anos de governo petista, até hoje de efeitos em geral benéficos. Outra há de ser, porém, a postura nas circunstâncias. Quero dizer, mais afirmativa, mais desabrida, mais corajosa. E mais afinada com as promessas do passado. Ouço uma voz otimista: “Isso tudo terá o efeito de oxigenar a política brasileira”. Tal é mais uma esperança do momento. Bem-posta, creio eu, desde que não deságue em nova desilusão.

Fonte: Carta Capital

Rio+20: uma sensação de ‘deja vú’

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Tradução a partir do Google Translate,

A mensagem não poderia ter sido mais clara. Os ativistas foram baleados, o estilo de execução, no mesmo dia em maio 2011 que Câmara dos Deputados do Brasil aprovou uma reescrita do Código Florestal, a lei que regula a atividade econômica na Amazônia. Zé Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, um casal casado ativista, foram mortos a tiros perto de sua casa florestal no Pará, no nordeste do Brasil. Eles eram a última das mais de 1.600 ativistas que foram mortos na Amazônia desde 1985, incluindo Chico Mendes, o organizador seringueiro e político cuja 1988 assassinato atraiu a condenação em todo o mundo.

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Como Mendes, Ribeiro tinha recebido numerosas ameaças de morte e previu o seu próprio assassinato. Em novembro de 2010 a floresta defensor disse a uma audiência em Manaus, “Eu poderia ter uma bala na minha cabeça a qualquer momento … porque eu denuncio os madeireiros.” A polícia imediatamente suspeitou que a morte de Ribeiro foi um sucesso profissional, porque o seu cadáver, como sua esposa , tinha uma orelha cortada; na Amazônia, assassinos costumam apresentar seus patrões com a orelha da vítima para comprovar o feito foi feito. Horas mais tarde, quando um legislador tomou a palavra na Câmara dos Deputados do Brasil para pedir uma investigação, ele foi vaiado por membros da bancada Ruralista, os legisladores aliados dos latifundiários que defendem a exploração máxima da Amazônia.

Uma terrível sensação de déjà vu paira sobre o Rio Nações Unidas 20 conferência sobre desenvolvimento sustentável, tendo lugar 20-22 junho. Vinte anos atrás, Rio de Janeiro sediou a Cúpula da Terra marco de 1992, que enquadrou o problema que o Rio +20 reexamina: como reduzir a pobreza global, preservando o planeta sistemas de suporte vital. Infelizmente, duas décadas depois, a Amazônia continua a ser um lugar sem lei, onde os criminosos saquear os recursos naturais com abandono e de intimidação violenta dos ativistas é comum. (Um exemplo atual é a floresta defensor Nilcilene Miguel de Lima, que, conforme relatado por Publica Brasil de notícias do grupo, tenho ameaças de morte de tantos que o governo deu-lhe uma protecção de segurança 24 horas, e depois passou-a para um local desconhecido.)

Internacionalmente, também, os paralelos entre a Rio +20 e da Cúpula da Terra estão perturbando. Como George H.W. Bush, em 1992, o presidente Barack Obama se recusou a dizer há semanas se ele iria participar da conferência do Rio, muito menos tentar unir o mundo para evitar uma catástrofe planetária. Em 12 de junho um comunicado do Departamento de Estado tornou oficial: Obama não vai. Quando Bush estava tentando desviar a cúpula em 1992, grandes empresas de mídia publicou uma série de histórias, lembrando-lhe o potencial impacto sobre sua reeleição esforços, que ajudaram a mudar a sua mente. Obama tem enfrentado não flak como por ser um Rio não comparência.

Por que deveria? Afinal de contas, Rio +20 é só falar sobre o fim do mundo como nós o conhecemos. Um novo estudo na revista Nature adverte que a Terra se aproxima de um “ponto de inflexão” que pode levar, dentro de algumas décadas, a irreversível degradação dos sistemas naturais que fornecem os seres humanos com comida, água e outros serviços vitais. Uma equipe liderada por Anthony Barnosky, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, descobriram que o aquecimento do clima rapidamente, o desaparecimento de plantas e incontáveis espécies animais, a propagação de substâncias tóxicas “zonas mortas” nos oceanos, e outras tendências perturbadoras poderia provocar uma transição para um planeta radicalmente menos hospitaleiro que seria “extremamente difícil ou mesmo impossível” de reverter.

No entanto, não é nenhum mistério como lidar com esses problemas, seja no Brasil ou no mundo. A taxa de desmatamento na Amazônia foi realmente caindo, tornando o Brasil líder mundial em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. De acordo com imagens de satélite da agência espacial do Brasil, “Entre 2006 e 2010, o Brasil reduziu o desmatamento na Amazônia cerca de dois terços abaixo da média anual de 1996 a 2005, reduzindo cerca de 1 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa”, escreve Steve Schwartzman, que o diretor como da política florestal tropical para o Fundo de Defesa Ambiental tem trabalhado na Amazônia há décadas. Ele credita a aplicação mais dura lei iniciado sob Marina Silva, o ex-ministro do Meio Ambiente (e um aliado ativista de Mendes antes de entrar no governo). Tatiana Carvalho, do Greenpeace Brasil cita outro motivo: uma campanha do Greenpeace que convenceu as empresas globais a não comprar soja da Amazônia claro cortadores.

No entanto, em resposta a aplicação mais dura lei, os ruralistas estabelecido para destruir o Código Florestal, diz Schwartzman. O código reescrito aumentou o número de árvores que poderiam ser cortados e concedeu anistia para desmatamento anterior. Presidente Dilma Rousseff havia prometido se opor a tal anistia um, e líderes de organizações científicas do Brasil e muitos outros lhe pediu para vetar o código reescrito. No entanto, em 25 de maio, um ano e um dia desde o assassinato de Ribeiro e Santo-Rousseff emitidos apenas “veto parcial”, uma que os ativistas condenam como um gigante passo para trás: ele manteve a anistia para desmatamento ilegal se ocorrer antes de 2008 na terra participações de até 1.000 hectares. A embaixada brasileira em Washington não respondeu aos repetidos pedidos de comentário.

Brasil não é o único culpado: dinheiro e poder, muitas vezes política trunfo sensível ao redor do mundo. Sob as regras atuais, em muitos países poluidores podem emitir gases de efeito estufa de graça, mesmo que elas subsidiados com centenas de bilhões de dólares de impostos. Da mesma forma, talvez o passo mais poderosa para a redução da pobreza seria para os Estados Unidos e outras nações ricas para cortar os subsídios à agricultura doméstica que reduzem os agricultores pobres “capacidade de competir nos mercados mundiais. Os governos do Norte, por vezes retoricamente endossar tais reformas Grupo de 20 líderes se comprometeram em 2009 a eliminação gradual dos combustíveis fósseis subsídios de alguma forma, mas eles nunca chegar a cerca de implementá-las. O Programa Ambiental da ONU identificou noventa metas verdes que os governos estabelecidos, mas observa que “progresso significativo” foi feito em apenas quatro deles. “Vivemos em uma era de irresponsabilidade”, diz o Diretor Executivo do PNUMA, Achim Steiner.

Por mais frustrante que seja para ver as soluções ignorado, é também instrutivo. Ambiental e defensores do desenvolvimento, muitas vezes agem como se o problema é a falta de informação: dar aos líderes mais fatos e eles vão tomar melhores decisões. Mas o mundo não funciona dessa maneira. Combater as alterações climáticas ea pobreza exige o desmantelamento de práticas políticas e econômicas que são lucrativos para os interesses dos poderosos e substituí-los por alternativas que sirvam o bem comum. Nenhum político vai tomar as medidas de ânimo leve, para os poderosos retaliar. Os últimos vinte anos demonstram que o apelo principalmente à consciência dos líderes mundiais não funciona. Em vez disso deve-se mudar os cálculos de decisões desses líderes políticos-los como medo de um público excitado como eles são dos estreitos interesses por trás do status quo. Existem várias maneiras de fazer isso, de votar políticos fora do escritório de marcha nas ruas. Mas seja qual for a forma que assume, não há substituto para a ação política de massa, se esperamos que virar esse navio afundando em torno do tempo.

Publicado originalmente em inglês no site do The Nation

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