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A morte do DG (Douglas), a p. que p., a p. e a Globo, tudo a ver.

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Uma jornalista da Rede Globo foi flagrada tendo um ataque de raiva durante gravação em Copacabana e foi rechaçada por populares

bopeNa tarde de ontem, os jovens Edilson da Silva e Douglas Rafael foram enterrados no cemitério São João Batista, zona sul do Rio. Eles foram mortos a tiros no Morro do Cantagalo entre a noite do dia 21 e a manhã do dia 22 de abril. Moradores acusaram PMs da UPP pelos assassinatos. A mãe de Douglas, a técnica em enfermagem Maria de Fátima questionou a presença ostensiva da Tropa de Choque da PM no enterro de seu filho e do jovem Edilson.

Nas ruas de Copacabana, a equipe da Rede Globo foi rechaçada por populares. Uma jornalista da emissora foi flagrada tendo um ataque de raiva (vídeo abaixo).

Leia também: O dia em que uma repórter da Globo foi sincera

Na noite do dia 22, moradores também protestaram e foram respondidos com tiros de munição letal. Até então, somente o jovem Douglas, conhecido como DG, havia sido morto. Na repressão ao protesto, Edilson foi baleado na barriga e morreu a caminho do Hospital Miguel Couto. Dessa vez, apesar da chuva e do clima de revolta, o protesto seguiu pacífico até o Cantagalo, quando PMs da UPP, rechaçados pelas massas, atacaram com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo.

Fonte: Pragmatismo Político

Jornal Nacional: Bonner, que já deve ter mais seguidores no Twitter que espectadores no telejornal que apresenta.

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globo__Cid-Moreira-e-S_rgio-Chapellin-d_cada-de-80__gallefull-600x461Nos anos 1980, quando eu era um jovem repórter da Veja, a redação, no sétimo andar do prédio da Abril na marginal do Tietê, se alvoroçava quando batiam 8 da noite.

Uma televisão, no fundo da redação, começava a passar o Jornal Nacional. A redação parava, mesmo em dias de fechamento, e só voltava a funcionar quando o JN terminava.

Não era só a Veja que parava. Era o Brasil. O JN tinha então 70% de audiência, em média. Às vezes mais. Ditava a agenda política e econômica do país. Roberto Marinho — que na busca de favores da ditadura dizia que a Globo era “o maior aliado” dos generais na mídia, conforme mostram documentos de Geisel reunidos em livro —  teria afirmado que notícia era o que o JN dava.

Para mim, o JN acabaria com minha saída da Veja rumo à Exame, em 1989. Perdi o hábito de vê-lo e jamais senti falta. Não voltei a ver sequer quando trabalhei na Globo, em meados dos anos 2 000. Nas reuniões do Conselho Editorial da Globo, às terças de manhã, eu chegava sem ter a mínima ideia do que o JN dera ou deixara de dar, e tinha uma certa dificuldade em me engajar em algumas conversas.

Muita gente fez o que fiz, por variados motivos. (O meu foi o incômodo em ver tanto foco em desgraças depois de ter visto o JN, na ditadura, mostrar um país paradisíaco aos brasileiros. Isso contribui para a nostalgia de alguns inocentes pelos ‘bons tempos’ dos militares. Também o conteúdo influía bem menos na Exame do que na Veja.)

Todas essas reminiscências me ocorrem ao ler que esta semana o Jornal Nacional bateu seu recorde negativo de audiência ao chegar a 18%.

É uma derrocada notável – e irremediável. Em alguns anos, os 18% parecerão muito diante da audiência que sobrará para o principal telejornal do Brasil.

O que ocorreu?

A tentação é dizer que é a ruindade técnica do JN que afastou o público. Mas, mesmo pobre o jornalismo do JN, não é esta a razão primeira do declínio.

Isto quer dizer que não adiantaria nada – pelo menos quanto ao Ibope —  trocar o diretor de telejornalismo da Globo, Ali Kamel, por alguém mais criativo e talentoso. Ou tirar Bonner, que já deve ter mais seguidores no Twitter que espectadores no telejornal que apresenta.

A real causa se chama internet.

A internet é uma mídia que os analistas classificam como “disruptora”: ela não se integra às demais, como sempre aconteceu na história do jornalismo. Ela mata.

As demais mídias – tevê aberta incluída – são progressivamente engolidas pela internet.

A situação do JN é análoga à que enfrenta a Veja. A revista definha em circulação, publicidade, influência, importância – em tudo, enfim. Não adianta trocar o diretor de redação. Mesmo que a Veja voltasse a ter a qualidade notável da década de 1980, sob o comando dos diretores JR Guzzo e Elio Gaspari, nem assim os leitores retornariam, porque o produto se tornou obsoleto como uma carroça quando despontaram automóveis nas ruas.

O milagre da Globo, hoje, é conseguir faturar como nunca, com audiências em colapso em todas as frentes, dos telejornais às novelas.

Proporcionalmente, a Globo ganha em publicidade mais do que ganhava quando alcançava três ou quatro vezes mais pessoas. Esta é a raiz da fortuna da família Marinho, a mais rica do Brasil.

O milagre se deve a uma coisa chamada BV, Bônus por Volume, uma espécie de propina que é paga às agências de publicidade para que anunciem na Globo.

Foi uma invenção de Roberto Marinho, depois seguida pelas outras grandes empresas de mídia do país, mas com resultados insignificantes se comparados aos da Globo.

Hoje, muitas agências dependem do BV para sobreviver.

Graças a isso, com cerca de 20% do mercado de mídia, a Globo tem 60% do bolo publicitário, uma bizarrice.

Isso vai mudar quando os anunciantes – que afinal pagam a conta – se recusarem a pagar tabelas cada vez maiores por produtos que alcançam cada vez menos pessoas.

Quanto ao Jornal Nacional, vive em boa parte das audiências passadas.

Políticos que fizeram carreira vendo-o influir tanto, sobretudo nos anos 70 e 80, parecem guardar dele a imagem poderosa de antes.

É a geração que está hoje no poder. “O pessoal morre de medo de 30 segundos do Jornal Nacional”, me disse recentemente um desses políticos.

Ele estava falando da dificuldade em fazer o Congresso discutir a regulação da mídia. Por isso, mesmo com uma audiência raquítica, o JN continua a ser um fator de obstrução de avanços sociais, uma espécie de Bastilha nacional.

Novas gerações de políticos vão ver o JN não pelo que foi, mas pelo que é: um programa minguante, cada vez visto por menos gente e, por isso, menos influente a cada dia.

Que venham as novas gerações, até por isso.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

Por que na China pratica-se a melhor democracia geopolítica?

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a158Leio, no iPad, a monumental História da Inglaterra de David Hume, filósofo, historiador e escritor inglês do século XVIII. (O iPad é uma festa para quem quer encontrar e ler clássicos de graça.)

Hume, um dos grandes ideólogos do liberalismo, viveu e morreu como um verdadeiro filósofo.  Era um homem simples, frugal, honesto, leal, corajoso, moderada até em sua única vaidade — literária. Segundo seu amigo e admirador Adam Smith, Hume chegou moralmente ao ponto mais alto que a fragilidade humana permite.

Vários trechos da A História da Inglaterra me despertam a atenção admirada. Num deles, no capítulo que trata de Carlos I, o rei inglês que se bateu com o Parlamento e acabou deposto e decapitado em meados do século XVII na primeira revolução burguesa da humanidade, Hume lança um olhar para a influência da religião entre os britânicos nos dias do monarca infeliz.

Assim disse Hume: “De todas as nações européias, a Grã Bretanha era naquele momento, e por muito mais tempo, a mais influenciada por aquele espírito religioso que tende mais a inflamar o fanatismo do que a promover a paz e a caridade.”

São palavras eternas.

Lamentavelmente, ao longo da história, a religião tem servido muito mais para piorar do que para melhorar as pessoas e a sociedade. Quem acaba dominando-a não são os moderados, os tolerantes, aqueles que aceitam a diversidade. São os radicais, os fanáticos, os que acham que podem matar os infiéis em nome de seu Deus, seja qual for.

O filósofo inglês Bertrand Russell atribuiu ao judaísmo, no Ocidente, a semente da ideia de que uma religião é melhor que outra ao estabelecer que os judeus eram o povo escolhido.  Os cristãos, posteriormente, trucidaram ignominiosamente os judeus por entender que escolhidos, na verdade, eram eles. Depois os cristãos se destruíram uns aos outros, quando Lutero inventou o protestantismo. Os muçulmanos já surgiram com a convicção de que Alá é o único deus genuíno.

Tenho para mim que um dos maiores fatores do fenômeno chinês está na ausência de religião e da figura de Deus. A China era a civilização mais adiantada do mundo quando foi pilhada pelos britânicos  no século 19, superiores em uma única coisa: canhões. Depois dos britânicos, outras potências militares ocidentais foram tirar sua fatia da China — já então um mercado cobiçado de 400 milhões de pessoas. E quando parecia que nada mais poderia castigar a China apareceram seus vizinhos japoneses.

A China poderia ter virado um figurante no mundo. Mas não: se reergueu depois de tantas agressões predatórias, e ninguém acredita que em dez anos ela já não tenha ultrapassado os Estados Unidos como superpotência número 1. (Sempre existe a possibilidade, é claro, de que os americanos inventem um pretexto para declarar guerra à China.)

A impressionante resistência chinesa deve muito à inexistência de religião tal como conhecemos. Confúcio, o grande filósofo que estabeleceu as bases éticas que governam a China há 2 500 anos, acabou fazendo o papel de Deus para os chineses com a vantagem de não ser Deus e nem ser entendido como tal. Confúcio pregou três coisas, essencialmente: os jovens devem ser muito bem instruídos; os amigos devem ser leais uns aos outros; e os filhos devem cuidar exemplarmente dos velhos.

Confúcio deu aos chineses um guia de conduta prático e sempre atual. A musculatura interior veio do budismo, em que não existe a figura de Deus. Buda era um ser humano como todos nós — entregue às tentações, cheio de dúvidas, repleto de tentações. Na fraqueza aparente de Buda diante dos deuses de outras religiões estava, paradoxalmente, a força do budismo — e em consequência da China.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

Outono – a melhor das (suas) estações

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Gosto muito do outono, daquela sensação não muito sufocante do calor de verão e ainda não tão paralisante como o frio do inverno. A sensação de uma certa candura da natureza me toca profundamente, ela anuncia coisas importantes.

A metáfora das folhas caindo e sendo levadas por um vento refrescante remete ao trabalhoso processo de mudança interior. O outono nos lembra de nossa mutabilidade e de como o caminho da redescoberta pode ser libertador.

outono
A todo momento o mundo externo nos chacoalha em nossas certezas e teimosias. Ignorar o apelo dessas perturbações seria seguir como quem recebe um presente e recusa sem o abrir.

O que sobra em você que precisa deixar cair?

Que pessoas teima seguir arrastando em sua vida que já estão secas?

Que ações já são inúteis e precisa desativar?

O que está obsoleto em sua visão de mundo que já pode ser deixado de lado?

A sensação inicial de perder algo pode parecer terrível, mas a leveza e liberdade que se abre em seguida permite que um novo tipo de vida ganhe força, plenitude e vigor. Deixar o passado para trás é uma forma de fincar os pés no que hoje realmente dá condições para a felicidade.

Deixar-se um pouco é um meio de seguir em frente. Mas há quem tenha medo de se desapegar de si mesmo que nem dá chance para o novo. A fênix da mitologia só renasceu porque se permitiu queimar em cinzas. Esse apelo é muito mais poderoso do que imagina.

Comece por coisas pequenas, trate cada ação automatizada como uma folha que deixa despencar de você para que venha outra possibilidade mais pensada e livre de obstáculos.

Deixe que o outono toque você, “desfloreça” para reflorescer.

Fonte: Sobre A Vida

Tecnologia e Poder – tudo a ver com a precarização do trabalho.

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Pesquisadores identificam nas tecnologias atuais componentes responsáveis pela precarização da trabalho, sendo o único caminho para modificar tal cenário as políticas de resistência

Por Marcelo Hailer. Fotos: Fora do Eixo

Aconteceu ontem (25), na Biblioteca Mario de Andrade, o seminário “Tecnologia e Poder”, que contou com a participação de pesquisadores das principais universidades do Brasil. O evento foi encerrado com a mesa “Tecnologia e poder nas sociedades informacionais: Para onde estamos indo?”, que teve como debatedores os professores Sergio Amadeu (UFABC), Langdon Winner (Rensselaer Polytechinic Institute – New York) e Marilena Chaui (USP).13395029495_1b87e6104a_z A mesa teve mediação do editor da Fórum, Renato Rovai.

Sergio Amadeu abriu os trabalhos abordando a questão das “tecnologias de modulação, economia da intrusão e relações de poder”. De acordo com ele, hoje não vivemos mais na sociedade industrial. “Estamos numa fase de transição à sociedade informacional, que gira em torno das tecnologias cibernéticas, que são tecnologias de controle”, explicou Amadeu.

Um dos grandes problemas na expansão das redes comunicacionais é o fato de que “você tem dificuldade de ser visto, ser atingido. A internet derrubou as barreiras do falar, o difícil não é falar, é ser ouvido. E aqui a economia da atenção ganha relevância”, analisa Amadeu, a respeito dos novos tipos de relações e economias na era das redes.

Ele também dissertou a respeito de como o capitalismo assimilou as relações nas redes sociais ao “trabalhar cada vez mais com a formação dos desejos”, predominando, dentro desta lógica, dois tipos de microeconomia: a da atenção e da intrusão. “As tecnologias da cibernética são a base da sociedade do controle, que recai na macroeconomia da atenção”, avalia. “Tecnologias que nos divertem, que facilitam; a liberdade e comunicabilidade dependem cada vez mais do seu celular. Mas isso não fica apenas nessas tecnologias. Estamos moldando as nossas vidas em torno de tecnologias cibernéticas”, disse Amadeu.

Posteriormente, Amadeu explicou que as técnicas de intrusão e atenção não são apenas uma onda. “Pra tudo isso funcionar é necessário a microeconomia da atenção e da intrusão. Isso não vai parar num futuro próximo, é uma tendência”, aponta o professor. Para dar uma dimensão de como atuam as tecnologias de controle, ele utilizou um exemplo que, à primeira vista, pode parecer banal, mas explica esse processo. “As tecnologias que usamos são de controle. A geladeira nos anos 1990 não era conectada, não gerava informação. Logo, a geladeira vai estar conectada com o seu celular, dispositivos vão avisar que a cerveja acabou, que o compartimento de verduras está vazio e, na sequência, vai lhe oferecer tais produtos”, previu.

Amadeu também elaborou um esquema para demonstrar a quantidade de dispositivos de controle que estarão interligados para que a geladeira informacional funcione. “O celular vibra e somos informados que a geladeira está vazia e os produtos são oferecidos e pagamos num sistema de crédito. Empresa da geladeira, mais empresa que fabricou o aplicativo, mais empresa que vende os produtos, mais a empresa de créditos e, por fim, a empresa que permite o sistema que interliga todos estes dispositivos. Será que vamos viver melhor?”. Ele mesmo respondeu a questão dizendo que não, pois tratam-se de tecnologias que não “vão liberar o nosso tempo e nossa mobilidade, pois são tecnologias de controle”.

Por fim, o professor apresentou caminhos que podem levar a economia do controle ao colapso. “Se as pessoas utilizarem navegação anônima e criptografada vão colocar em risco a economia informacional. Isso dificulta a biopolítica da modulação praticada pelas corporações. É necessário que os cidadãos aprendam a usar a criptografia; se a lei não funcionar, use a criptografia”, finalizou Sergio Amadeu.

seminario“O sonho americano já era”

Posteriormente à fala do professor Amadeu, foi a vez do professor Langdon Winner, da Rensselaer Polytechinic Institute (New York), que desenvolveu a sua fala a partir da tríade política, poder e tecnologia. Winner declarou que hoje em dia o Congresso norte-americano não aprova mais leis e não produz mais nada de positivo ao povo, sendo o grande exemplo disso o fato de, desde o terceiro ano do primeiro mandato de Obama, ele “não produzir mais nada a não ser belos discursos”.

“No momento, o Congresso não aprova nada de positivo para o povo. De acordo com as pesquisas politicas, isso é um problema, o Congresso hoje tem uma taxa de aprovação de 5%. O líder da Casa anunciou que não está interessado em aprovar leis, por isso, em minhas aulas, explico como a lei é criada, e não aprovada. O que era para ser chamado de Legislativo, deve ser chamado de ‘obstrutivo’. Ou seja, temos o Executivo, o Obstrutivo e o Monárquico”, explicou Winner.

O professor de Nova York fez um panorama da situação econômica e trabalhista atual dos Estados Unidos. “Houve uma grande mudança na distribuição da riqueza. Os salários dos mais pobres foram achatados, é só vermos o salário dos CEOs e dos trabalhadores. Hoje, eles (CEOs) ganham 206 vezes a mais que o trabalhador comum. A desigualdade nos EUA é pior do que no Paquistão e na Costa do Marfim”, denunciou Langdon Winner.

Após descrever a situação precária do emprego, Winner foi enfático ao dizer que o “sonho americano já era”. “Não há mobilidade econômica para cima. Os sonhos acabaram: educação pública foi cortada, a universidade é apenas para os ricos, pensões para aposentados acabaram… O que aconteceu com o sonho americano, pessoal? A razão pela qual chamam de sonho é por que você deve estar dormindo”, ironizou.

Para Langdon as novas tecnologias estão diretamente ligadas a precarização da vida. “O que aconteceria com a tecnologia? Ninguém imaginava que ela fosse afetar a vida pessoal. Alguns pensavam que políticas industriais poderiam organizar isso, trabalhando com sindicatos e governos. A tecnologia de computador não é de classe neutra, é essencialmente capitalista, ela erodiu a classe trabalhadora. Será que todas as formas de atividades de produção podem ser colocadas de forma rápida e quase sem presença humana?”, questionou Langdon Winner.

Em tom apocalíptico, Langdon prevê que num “futuro próximo milhares de pessoas ficarão desempregadas por conta da criação de uma nova inteligência, inclusive muitos de vocês que estão estudando para entrar em uma profissão”. Por fim, Winner disse acreditar nas políticas de resistência como maneira de evitar o futuro pessimista que traçou em sua fala.

13394939085_ae1e1af9f0_z“Download de nossas mentes”

A filósofa e professora Marilena Chauí ficou com a missão de encerrar a mesa e o seminário. Ele iniciou sua fala alertando que a “discussão das novas tecnologias tem priorizado as comunicações e não as instituições”. “Hoje vemos a diferença dos objetos tecnológicos, eles ajudam na capacidade humana. Durante a primeira e a segunda Revolução Industrial o corpo se estendeu num espaço. Maquinas a vapor, rádio e TV. Agora é o nosso cérebro, sistema nervoso que se estende até abolir a experiência do espaço do tempo. Vivemos a destruição do espaço e do tempo pelas novas tecnologias”, refletiu.

A professora também entende que os sinais atuais nos mostram um novo desenho do ser humano. “Os sinais são os portadores da diferença. Estamos a caminho de redesenhar a forma humana. Uma síntese de carbono e silício, mescla de terminais nervosos e semicondutores. No futuro seremos ciborgues, híbridos… No futuro faremos download de nossas mentes”, prevê Chaui.

Por fim, Marilena Chauí retomou o assunto das manifestações de junho de 2013, em São Paulo. Para ela, apesar de toda a celebração em torno dos atos, também existe um caráter conservador e de espetáculo nas jornadas de luta do ano passado. “Na partida, era a redução das tarifas; na chegada, era a política, no entanto, essas manifestações não criticaram as instituições, aderiram à pauta da mídia conservadora de que os partidos políticos são corruptos por excelência. Ao invés de propor uma nova democracia, aderiram à ideia do ‘sem intermediário’, ou seja, ditadura”, criticou a professora.

Ao contrário do que muitos colocam, Chauí entende que as redes, em boa parte, funcionam como os meios tradicionais de comunicação. “A convocação foi feita pela rede e muitos celebraram por que derruba o monopólio dos meios. Mas quero colocar quatro pontos: 1) Comunicação é indiferenciada; 2) Tem forma de evento, sem referencial com o passado e o futuro – recusou o sócio-temporal pra se tornar espetáculo de massa; 3) Assume a dimensão mágica. Os usuários apenas usam a rede, não têm controle. A magia é instrumento da sociedade de consumo: satisfação imediata do desejo; 4) Aparência de espetáculo de massa. Fizemos supor que o universo é homogêneo. Ou seja, a rede tem uma aparência de ampliação da democracia, mas no fundo, a internet é uma nebulosa… Frequentemente fechada e secreta”, finalizou Marilena Chauí.

Fonte: Revista Fórum

Sincretismo: é a nova espiritualidade brasileira. E aponta que o nosso futuro religioso foge do passado católico.

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O povo brasileiro é espritual e místico goste ou não goste a intelectualidade secularizada,em geral, sem ou com tênue organicidade com os movimentos populares e sociais.

O povo não passou pela escola dos modernos mestres da suspeita que, em vão, tentaram desligitimar a religião. Para o povo, Deus não é um problema mas uma solução de seus problemas e o sentido derradeiro de seu viver e de seu morrer. Ele sente Deus acompanhando seus  passos, celebra-o nas expressões do cotidiano como “meu Deus”, “graças a Deus”, “Deus lhe pague”, “Deus o acompanhe”, “queira Deus” e “Deus o abençôe”. Geralmente muitos ao desligar o telefone se despedem com “fique com Deus”. Se nao tivesse Deus em sua vida, certamente, não teria resistido com tanta fortaleza, humor e sentido de luta  aos séculos de ostracismo social.

O cristianismo ajudou a formar a identidade dos brasileiros. No tempo da Colônia e do Império ele entrou pela via da missão (igreja institucional) e da devoção aos santos e santas (cristianismo popular). Modernamente está entrando pela vida da libertação (círculos bíblicos, comunidades de base e pastorais sociais) e pelo carismatismo (encontros de oração e de cura, grandes shows-celebrações dos padres mediáticos).     Fundamentalmente o cristianismo colonial e imperial educou as classes senhoriais sem questionar-lhes o projeto de dominação e domesticou as classes populares para se ajustarem ao lugar que lhes cabia na marginalidade. Por isso a função do cristianismo foi extremamente ambigua mas sempre funcional ao status quo desigual e injusto. Raramente foi profético. No caso da escravidão foi francamente legitimador de uma ordem iniqua.

Somente a partir dos anos 50 do século passado, setores importantes de sua institucionalidade (bispos, padres e religiosos e religiosas, leigos e leigas) começaram um processo de deslocamento de seu lugar social  no centro, rumo à periferia onde o povo pobre vivia. Surgiu o discurso da promoção humana integral e da libertação sócio-histórica cuja centralidade é ocupada pelos oprimidos que já não aceitam mais sua condição de oprimidos. Pelo fato de serem simultaneamente pobres e religiosos, tiraram de sua religião as inspirações para a resistência e para a libertação rumo a uma sociedade com mais participação popular e mais justiça. Emerge um cristianismo novo, profético, libertador  e comprometido com as mudanças necessárias.

Mas a maior criação cultural feita no Brasil é representada pelo cristiansimo popular. Colocados à margem do sistema político e religioso, os pobres, indígenas e negros deram corpo a sua experiência espiritual no código da cultura popular que se rege mais pela lógica do inconsciente e do emocional do que do racional e do doutrinário. Elaboraram assim uma rica simbologia, as festas aos seus santos e santas fortes, uma arte colorida e uma música carregada de sentimento associada à noble tristesse. Ele não significa decadência do cristianismo oficial, mas uma forma diferente, popular e sincrética de expressar o essencial da mensagem cristã.

As religiões afrobrasileiras, o  sincretismo urdido de elementos cristãos, afro-brasileiros e indígenas, representam outra criação relevante da cultura popular. Abstraindo de algum fundamentalismo evangélico, o povo em geral não é dogmático, nem obsecado em suas crenças. É tolerante, pois crê que Deus está em todos e todos os caminhos terminam nele. Por isso é multiconfessional e não se envergonha de ter várias pertenças religiosas. A síntese é feita dentro de seu coração em sua espiritualidade profunda.  A partir daí compõe o rico tecido religioso. O antropólogo Roberto da Matta o exprimiu acertadamente: “No caminho para Deus posso juntar muita coisa. Nele, posso ser católico e umbandista, devoto de Ogum e de São Jorge. A linguagem religiosa de nosso pais é, pois, uma linguagem de relação e da ligação. Um idioma que busca o meio-termo, o meio caminho, a possibilidade de salvar todo o mundo e de em todos os locais encontrar alguma coisa boa e digna”( O que faz o brasil Brasil, Rocco, Rio de Janeiro 1984,117).

Especialmente importante é a contribuição civilizatória trazida pelas religiões afro (nagô, camdonblé, macumba, umbanda e outras) que aqui a partir de suas próprias matrizes africanas elaboraram rico sincretismo. Cada ser humano pode ser um incorporador eventual da divindade em benefício dos outros. Negados socialmente, desprezados politicamente, perseguidos religiosamente, as religiões afro-brasileiras devolveram auto-estima à população negra, ao afirmar que os orixás africanos os enviaram a estas terras para ajudar os necessitados e para impregnar de axé (energia cósmica e sagrada) os ares do Brasil. Apesar de escravos cumpriam uma missão transcendente e de grande signficação histórica.

Foram os negros e os indígenas que conferiram e conferem uma marca mística à alma brasileira. Todos se sabem acompanhados pelos santos e santas fortes, pelos orixás,p pelo Preto Velho (umbanda) e pela mão providente de Deus que não deixa que tudo se perca e se frustre definitivamente. Para tudo há jeito e existe uma saída benfazeja. Por isso há leveza, humor, sentido de festa em todas as manifestações populares.

O futuro religioso do Brasil não será, provavelmente, o seu passado católico. Será, possivelmente, a criação sincrética original de uma nova espiritualidade ecumênica que conviverá com as diferenças (a tradição evangélica em ascenso, o pentecostalismo,o kardecismo e outras religiões orientais) mas na unidade da mesma percepção do Divino e do Sagrado que impregna o cosmos, a história humana e a vida de cada pessoa.

Fonte: Leonardo Boff

Anitta, seu corpo é seu.

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994521_532033866857180_219713066_nComeçou assim: alguém me avisou que Anitta tinha postado um trecho de uma música minha numa rede social. Depois me mandaram um link dela cantando Máscara ao vivo num show. Depois outro dela cantando Na Sua Estante. E eu achei divertidíssimo que alguém de um universo tão diferente estivesse ligada no meu som e reinterpretando-o a sua maneira. Isso já faz um tempo, e tudo o que eu sabia até então é que eu a tinha visto num clipe com uma fotografia massa. “Ah, é aquela menina do clipe bonito”, pensei. E o tempo foi passando, e as reações de algumas pessoas em comentários quando me mandavam os links começaram a me deixar intrigada-barra-preocupada. Geralmente meninas, e novas, com um discurso de “credo, essa menina cantando sua música, ela fica aí mostrando o corpo, sendo vulgar” etc, etc. Coisas desse tipo. Percebi que o que incomodava não era necessariamente o estilo, ninguém falava sobre mérito musical, cantou bem ou cantou mal, mas sim MOSTROU O CORPO. E até hoje, volta e meia alguém me escreve com esse papo. Sempre fui uma pessoa discreta, não curto expôr vida pessoal e nem sou afeita a ensaios sensuais; não por pudor, mas por sentir que a máquina patriarcal que opera esses mecanismos acaba sempre nos colocando como bibelôs à disposição- mesmo quando tenta nos convencer de que isso é exercer liberdade. Quando o fiz, procurei que fosse em um veículo no qual eu sentia que realmente esse exercício de liberdade estaria em primeiro plano. Enfim.

O que me deixou aflita e o que eu queria dizer para aquelas meninas que mandaram as mensagens é: NOSSO CORPO É NOSSO. Não deixe ninguém te dizer o contrário. Desfrute dele, assuma-o com a forma e tamanho que ele tiver, vivencie seu corpo- assumindo a responsabilidade que isso traz. Esse empoderamento é importante pra todas nós. Nós podemos usar a roupa que quisermos, podemos dizer o que quisermos, podemos ficar com quem quisermos, a hora que quisermos. Somos donas do nosso destino e estamos aqui para sermos felizes e nos sentirmos bem. O resto, meus amores, é só opressão.

Pra mim isso tudo é clichê de tão óbvio, mas achei que devia dizer.

Um abraço carinhoso pra todas, suas lindas. 
E em tempo: um beijo, Anitta! :)

Fonte: Blog da Pitty – Boteco

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