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Sininho. Quem tem medo dela?

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downloadE então só se fala de Sininho, a ativista nascida no Rio Grande de Sul e radicada no Rio de Janeiro.

A Globo e a Veja estão massacrando Sininho, e isto leva a crer que a garota tem virtudes.

Sininho, 28 anos, cineasta, é essencialmente uma jovem inconformada com o “sistema”.

Que jovem idealista não estaria, diante das circunstâncias?

Você vê índios sendo mortos, operários se destruindo nas obras da Copa, brasileiros miseráveis sendo removidos de suas casas precárias por causa do Mundial – e vai ficar conformado, se tem sensibilidade social?

A cidade em que vive Sininho ajuda também a entender seu inconformismo: como aturar, sentado no sofá, o desgoverno de Cabral?

“Ah, não vamos para a rua porque Cabral é chapa do Lula”: quem diria isso?

E então os jovens vão às ruas e são recebidos pela polícia predadora de Cabral, sob a omissão de um governo federal que não podia mexer nos brios de seu aliado.

Ora, condenar Sininho é farisaico.

Ela representa o espírito do tempo. Seus pais, segundo ela, participaram da fundação do PT.

Mas para ela, e para muitos outros jovens da mesma geração, o PT acabou por se transformar no sistema.

Ou você quer que Sininho veja Lula abraçado a Maluf e Sarney ou Dilma comprometida com os ruralistas e se sinta representada?

Querer transformar os black blocs em terroristas é uma falácia, um gesto cínico e indefensável.

Que a direita faça isso, entende-se por seu apego a privilégios e medo de tudo que represente oposição a regalias ancestrais.

Mas o PT?

As acusações são bizarras. Eles são atacados porque são “mascarados”. E daí? Tentaram matar uma família num carro quando tudo que ocorreu foi que um motorista assustado tentou passar com seu Fusca baixo sobre um colchão em chamas.

Mataram o cinegrafista e conseguiram seu primeiro cadáver.

Ora, foi um acidente lastimável, triste, mas foi exatamente isto: um acidente. Ninguém pegou uma arma e atirou contra Santiago.

Coube a Sininho mesma trazer um pouco de lógica ao debate ao perguntar: por que a Band não deu um capacete para proteger seu cinegrafista? Em áreas conflagradas mundo afora, isso acontece: dar proteção aos jornalistas que cobrem protestos perigosos.

O DCM é visceralmente antiviolência. Somos franciscanos na essência. Andamos com passarinhos nos ombros, e ficamos maravilhados com o Papa Francisco, nosso ídolo. Gandhi e Luther King estão em nossos corações.

Agora: a violência nos protestos do Rio é obra da polícia. Em algum momento, os black blocs entraram em cena para proteger os manifestantes.

Eles são uma reação à truculência policial.

Não fosse a violência policial, altamente estimulada pela mídia com sua pregação contra os “vândalos” e “baderneiros”, eles provavelmente nem tivessem surgido no Brasil.

Agora mesmo: a direção da empresa jornalística alemã Deutsche Welle manifestou formalmente à embaixada brasileira na Alemanha seu protesto contra as cacetadas que seu correspondente levou no protesto em que morreu Santiago.  Ninguém prestou atenção nisso, exceto, modéstia à parte, o DCM. O relato do correspodente conta tudo: uma manifestação pacífica virou um campo de guerra por causa da polícia.

Repito: por causa da polícia.

E em vez de dar um basta à violência policial, os crucificados são os black blocs, por pura conveniência e oportunismo político.

Vamos encarar os fatos: o PT detesta os black blocs por dois motivos. Um: eles não obedecem ao partido. Sequer respeitam. Dois: os protestos podem por em risco, na visão petista, a eleição fácil de Dilma.

O segundo item é uma fantasia. Dilma, com ou sem black blocs, caminha para uma reeleição fácil, dada a fragilidade excepcional da oposição.

Não surgiu, com envergadura, partido nenhum que represente uma nova ordem social menos injusta. É uma tremenda sorte para o PT — e um enorme azar para o país — que do lado de lá estejam fósseis políticos como Aécio, Serra, FHC, Marina, Eduardo Campos etc. Um partido envelhecido como o PT parece jovem diante de rivais encarquilhados.

A não ser que o PT se reinvente, o que parece difícil, no futuro o espaço estará aberto a um partido que realmente interprete a raiva das ruas contra tantos absurdos.

A mensagem de Sininho, no fundo, é esta: o Brasil tem que ser melhor do que é.

Como discordar?

Fonte: Diário do Centro do Mundo

Acorda Eduardo… a Marina Silva mais te atrapalha e ajuda Dilma. Aécio, nem se fala…

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A presença de Marina Silva produz efeitos colaterais que ameaçam isolar o governador pernambucano no páreo da eleição presidencial

Que tente tapar o sol com a peneira quem quiser tentar. Inútil. Não é possível mais esconder as trombadas entre Eduardo Campos e Marina Silva e as consequências derivadas desse choque.

A relação entre os dois é um modelo novo de coligação entre um partido existente, o PSB, e um partido inexistente, a Rede Sustentabilidade. Por isso, Marina não é apenas ornamentação. Tem vez e voz.

A melhor imagem para explicar a aliança é a maternidade. O PSB seria a “barriga de aluguel”, onde está em gestação a Rede. A “barriga” de Marina, puxando votos, representa o ventre onde cresce a candidatura de Eduardo Campos.

As pesquisas de opinião dão indícios de que ela tem condições de transferir para Eduardo Campos parte de votos prometidos, até então, a ela. É possível considerar, pela última pesquisa Ibope, que os 6 pontos de crescimento (de 4% para 10%) do pré-candidato do PSB resultaram da retirada do nome dela da disputa. É, porém, mais um caso de suposição do que de ciências exatas.

Há sinais mais fortes que a transferência de votos. A presença de Marina provoca efeitos colaterais desastrosos para Eduardo Campos. Pode, por exemplo, isolar a quase solitária candidatura do governador de Pernambuco à Presidência da República. Ele precisa de aliados, de recursos e de tempo na televisão. O PSB, sem alianças, dispõe de 1m40s do horário eleitoral.

Nesse “casamento” com Marina, inesperado, Campos é quem faz a costura política. Para dentro e para fora. Presidente do PSB, ele tem poder incontestável na agremiação.

Marina descostura com a prática do excesso de zelo. É a guardiã da pureza política inalcançável.  Ela já tem um boletim de ocorrências negativas grande para tão pouco tempo de atuação como parceira e virtual candidata à Vice-Presidência.

Desferiu o primeiro ataque contra Ronaldo Caiado (DEM), identificado como “inimigo histórico”. Recém-chegada ao PSB, ela não sabia que provocaria com a declaração o rompimento de uma aliança eleitoral que Campos costurava em Goiás. Mas não parou por aí. Bloqueou a aproximação do PSB com o PDT, partido que, na definição dela, conduz o Ministério do Trabalho “como um feudo”.

Na segunda-feira 4, criou atritos numa reunião, em São Paulo, para definir a estratégia política no maior colégio eleitoral do País. Ela defendeu a necessidade de ter um candidato próprio no estado. Tinha na bolsa o nome do deputado Walter Feldman.

Em São Paulo, o PSB trabalha, porém,  pela reeleição do tucano Alckmin. E assim será. Marina perdeu. Há, inegavelmente, nessa aliança uma contradição entre o que parece ser novo com o que parece ser velho.

Campos é um político clássico. Não pede a carteira de identidade ao filiado. Foi ao Piauí para consolidar o apoio do ex-senador Heráclito Fortes, ex-DEM e agora do PSB, um político com feitos negativos que dispensam apresentação.

Não é possível, porém, imaginá-la dando as boas-vindas a Heráclito com um sorriso constrangedor ou, muito menos, com um beijinho amigável nas descomunais bochechas dele. Pelo apoio de Heráclito, Marina nunca iria ao Piauí.

Fonte: Carta Capital

Quem acordou, o Brasil ou o monstro?

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O monstro acordou

Fazer política no Brasil é ficar muitos anos sem conversar com o povo, descobrir as favelas só para pedir votos. Vai continuar sendo assim?

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Se você entrasse num bar de periferia há alguns anos e perguntasse o que eles acham do Movimento Sem Terra ou das “invasões”, como são comumente chamadas, os fregueses do bar, em sua maioria, diriam que era uma pouca vergonha e alguns até desafiariam o movimento a entrar em suas casas, ironicamente um barraco de madeira de dois metros quadrados.

De uns anos pra cá, quando se trata de qualquer movimento social, as conversas mudaram, o cidadão começou a prestar mais atenção no que anda rolando, com vários meios de comunicação agregados, como blogs, redes sociais etc. A notícia tem vários pontos de vista, todo mundo que tem um celular é um repórter, todo mundo que digita mensagens também pode escrever um texto com sua opinião.

Já presenciei cenas em que o ponto de vista de um senhor de 50 anos foi transmitido pelo seu neto, que viu na internet o fato e comentou com o avô.

E, quem diria, as conversas tão exaltadas do governo, segundo quem não existe mais miséria no Brasil, seriam um dia contestadas, não por intelectuais que conhecem de números e índices, mas sim pelo próprio povo que o elegeu.

Os protestos não se dão por um só motivo, muita gente sabe disso, mas a fragmentação do que querem é ainda maior. Uns lutam por hospital, outros pela reprovação da PEC 37, e a maioria pela moralização da política brasileira.

Vamos aos fatos na crua realidade do dia-a-dia. O que adianta ter carro, se as vielas não tem passagem, se chegar a qualquer lugar virou um desafio infinito de paciência? O governo diz que somos todos pedestres, pede respeito um ao outro, mas depois de uma hora no trânsito todo mundo vira um canalha.

São Paulo tem lindas pontes para exibir seu congestionamento; lindos prédios para você ver enquanto caminha a pé na marginal; nossos moradores têm medo de assalto, alergia a poluição. Fazemos brigas dignas de UFC ao vivo em qualquer lugar. Ter ponte igual à Europa não quer dizer que os postos de saúde tenham pelo menos algodão.

É fácil se tachar e ser tachado de classe média e não poder pagar a luz de casa, não poder ter tevê a cabo, pois o arroz subiu de 6 para 10 reais em meses.

A classe média engorda os protestos, pois tudo que paga também não funciona – os planos de saúde marcam consultas para dois meses com especialistas. Está quase no padrão SUS.

A bolha falsa do progresso estourou, a caixa de Pandora se abriu, e isso é visível quando você vê o tiozinho que é fanático por futebol dizendo que esses gastos com estádio são “tiração” demais, pois sua cirurgia foi remarcada para o ano que vem, e os exames só valem mais três meses.

O monstro acordou, ninguém pode mais para dormir, tudo tem um limite e o nosso já chegou. Eles mentem na tevê, a gente se liga na internet, eles falam de pesquisas, a gente ouve as vozes das ruas, eles mudam de opinião, a gente desliga o rádio e vai pra rua ouvir algo mais contundente.

A balela em defender o patrimônio está caindo, não adianta morar bem e não poder abrir a janela.

Agora ninguém fecha mais, somos mais do que a luta por moradia, pelo direito de ir e vir, não podem nos tachar por classe social, pois todo mundo tá junto nessa. A cidade é nossa e essa briga também.

Os gritos são contra a roubalheira, contra apanhar de fardado por querer levar o pão para casa, por querer vender CD’s nas ruas – chega de levar tiro por estar no bar jogando sinuca.

Todos parecem querer olhar bem na cara do sistema e dizer: Nem sua mídia tá mais do seu lado, o cenário que eles vão encontrar aqui no ano da Copa é parecido com The Walking Dead, pois todos nós estamos na ilha de Lost.

Quem em qualquer periferia consegue manter a família do jeito que tá? No centro das cidades, quantas empresas fechando, quantos pequenos comerciantes desistindo, pois todo tipo de mercadoria vem mais barato do estrangeiro?

Tenho dezenas de exemplos de amigos que sempre trabalharam duro e, agora, sem saída, estão vendendo tudo que têm, tentando correr atrás de outra possibilidade de manter a sua família. Mas, se o progresso era tão festejado, onde ele está?

Nas passeatas, a força da multidão mandou baixarem as bandeiras de partido. Os que caminham com lenço no rosto não se identificam mais com nada que tenha siglas. Suas falas são contundentes.

Estamos todos cansados de pagar, de apanhar, de cheirar fumaça, de ser trânsito, de perder celular no farol, de ser maltratado por todo mundo que tem um uniforme, de ser convencido a ter e não a ser uma pessoal melhor.

A resposta do governo é a de sempre – bala de borracha para o aluno que nunca teve material digno na escola, gás lacrimogêneo para o pai de família que não teve sequer inalação para o filho no posto de saúde, spray de pimenta para o camelô que luta o dia todo e viu que a marmita já estava azeda.

O que todos querem? É só ler as placas: hospitais padrão Fifa. Mas fazer política no Brasil é ficar muitos anos sem conversar com o povo, descobrir as favelas só para pedir votos.

O povo quer alguém que, ao descer as vielas, saiba andar nelas, quer ver o terno cheio de poeira, o colarinho aberto, o suor na pele não tão lisa, não tão branca, quer um deles com cara de nós.

O povo não quer pedir mais nada, quer exigir, por isso foi para as ruas, que são deles, que são nossas, mas onde não mais levamos nossos filhos para brincar.

Um sonho era ver brasileiros usando a bandeira não somente para os jogos.

Talvez tenhamos um plano mesmo para gerir esse país, sem que tenhamos que mudar as cores dos uniformes das escolas a cada troca de prefeitura, um país que não mude as gestões das subprefeituras a cada troca de vereador.

Talvez um país onde a escola particular seja igual à pública, onde o convênio e o SUS são parecidos em qualidade, onde a segurança não precise ser privada.

Ainda se tem muito para mudar, muito para exigir, e nossos motivos para protestar nunca foram tantos.

*Ferréz é escritor e fundador da 1DaSul, grupo que promove eventos e ações ligadas ao hip-hop no Capão Redondo, em São Paulo

Fonte: Carta Capital

A oportunidade que o PT perdeu – por Mino Carta

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O Brasil vive um momento de desencontros e esperanças, nem todas bem-postas. Primeiríssima entre estas a da mídia nativa, chega a sustentar que as atuais manifestações de rua se assemelham àquelas pelo impeachment de Fernando Collor. Má informação e delírio são alguns dos atributos do jornalismo pátrio. Quando a Globo mobilizou uma juventude carnavalizada para solicitar a condenação do presidente corrupto, o próprio já havia sido atingido fatalmente pelas provas das ligações entre o Planalto e a Casa da Dinda, levantadas pela IstoÉ. Seu destino estava selado com ou sem passeatas. No mais, é do conhecimento até do mundo mineral que imaginar a derrubada de Dilma Rousseff naufraga no ridículo.

Impávida, a mídia nativa, depois de recomendar repressão enérgica contra os baderneiros, percebeu a possibilidade de enganar os incautos ao sabor da sua vocação e tradição, e agora afirma com a devida veemência o caráter antigovernista das manifestações. Mira-se logo nas próximas eleições. Difícil mesmo, se não impossível por enquanto, distinguir o que move os manifestantes. Certa apenas a demanda da periferia no país da casa-grande e da senzala. Aludo à maioria dos brasileiros que usam ônibus e desconhecem um certo Estado do Bem-Estar Social, para sofrer as consequências de sistemas de saúde, educação, transporte coletivo de péssima qualidade. Sem contar o saneamento básico.

No mais, há espaço nas ruas para as motivações mais diversas, desde o prazer da festa até a expectativa de quem aspira a alguma mudança sem saber como se daria e com qual profundidade. Desde quem se aproveita da confusão para quebrar vidraças e invadir lojas até os netos e bisnetos dos burguesotes das marchas da família, com Deus e pela liberdade, que invocavam o golpe em 1964. Todos juntos, como torcidas uniformizadas, mas ao acaso, sem liderança. Abrem-se situações expostas a qualquer desfecho e mais uma certeza é a de que ninguém consegue controlar as ruas.

Entende-se. Igual ao abismo que separa ricos e pobres há outro entre a nação e as instituições ditas democráticas. Entre Legislativo, Judiciário e Executivo e esta massa empurrada em boa parte por intenções nebulosas. Avulta, no quadro, a ineficácia do Congresso, entregue aos interesses particulares de deputados e senadores, donde inabilitados a influenciar o destino do protesto popular e, cada qual, o comportamento dos seus eleitores.

Pergunto aos meus inquietos botões o que se daria hoje se o PT tivesse mantido as posições anteriores à eleição de Lula, quando no centro de sua doutrina instalava-se a negativa peremptória à modernização do atraso. Hoje vemos o PT presa dos compromissos da chamada governabilidade, disposto às piores concessões e irremediavelmente esquecido das consignas de outrora. O PT montou a ratoeira e ali colocou o queijo para atrair os ratos. Ao cabo, ele próprio gostou do queijo e caiu na armadilha. Não fosse isso, respondem soturnos os botões, neste instante cavalgaria o agito das ruas. Seria o partido que lidera antes mesmo de controlar.

O governo não discrepa do PT, a despeito dos índices elevados de aprovação, conquanto em leve diminuição e à espera das consequências das manifestações destes dias. Às vezes porta-se como se o complexo do vira-lata, ao qual Lula costuma aludir, tomasse conta das suas ações, inclusive no confronto com a mídia que o ataca e denigre, e também com uma base pretensamente aliada, predadora voraz. Faltam ao lado da presidenta tanto uma figura capaz de operar politicamente, como se diz, quanto parceiros mais competentes e menos comprometidos em alguns ministérios. Sem esquecer que os problemas do País não se resolvem a partir de uma lógica meramente tecnocrática.

Seria trágico, e não hesito ao recorrer ao adjetivo, desperdiçar 12 anos de governo petista, até hoje de efeitos em geral benéficos. Outra há de ser, porém, a postura nas circunstâncias. Quero dizer, mais afirmativa, mais desabrida, mais corajosa. E mais afinada com as promessas do passado. Ouço uma voz otimista: “Isso tudo terá o efeito de oxigenar a política brasileira”. Tal é mais uma esperança do momento. Bem-posta, creio eu, desde que não deságue em nova desilusão.

Fonte: Carta Capital

Aécio Neves: “Dilma é refém de um governo de cooptação”.

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Principal nome do PSDB para disputar a Presidência, o senador diz que a oposição vai chegar forte em 2014 porque o modelo do PT vai se exaurir.

Em 2010, Aécio Neves tinha altos índices de popularidade depois de dois mandatos como governador de Minas Gerais e poderia postular a candidatura à Presidência da República pelo PSDB. Mas não quis entrar numa disputa interna e cedeu a vez ao então governador de São Paulo, José Serra. Serra ainda parece alimentar a pretensão de voltar a concorrer ao Planalto. Mas agora quem tem maioria no partido é Aécio. Entronizou aliados nos principais postos da direção partidária e comanda a reorganização do PSDB. Depois de um início de mandato relativamente discreto no Congresso, onde o governo conta com maioria avassaladora, Aécio, aos poucos, tem aumentado o tom das críticas ao governo Dilma. Na semana passada, ele deu esta entrevista a ÉPOCA.

ÉPOCA – O senhor disse que está pronto para ser candidato à Presidência da República em 2014 em disputa com a presidente Dilma Rousseff ou o ex-presidente Lula. Como tornar viável uma candidatura de oposição a um governo bem avaliado?
Aécio Neves – 
O PSDB passou por uma reorganização em sua direção e agora inicia um processo de debates com a sociedade. Realizou um grande seminário, com a participação de figuras que não são do partido, e deu a largada na discussão de temas que permitirão um antagonismo com o governo. Não me surpreende a popularidade da presidente Dilma. É natural, no primeiro ano de governo, que o protagonismo da cena política seja da presidente. Ela tem boas intenções. Mas é refém do que lá atrás se chamou de coalizão, mas não passa de um governo de cooptação. O governo do PT abdicou de um projeto de país para se dedicar a ficar no poder. O tempo está passando e não há nenhuma inovação em nenhuma área. A oposição chegará altamente competitiva em 2014, porque esse modelo de go-vernar pela cooptação, estabelecido pelo PT, vai se exaurir.

ÉPOCA – Um problema da oposição é que a base do governo reúne 17 partidos. Se for candidato, que partidos o senhor pretende atrair?
Aécio – 
Não sou candidato, não ajo como candidato. Sou lembrado por alguns companheiros do partido, mas falar em nomes agora seria um equívoco estratégico enorme. O PSDB precisa antes voltar a dizer ao país o que pensamos. No momento adequado, vamos ter novos aliados, porque o modelo do PT vai chegar ao final de 12 anos sem enfrentar nenhum grande contencioso do país. Eles tocaram a coisa conforme a maré permitia, e isso vai gerar cansaço. O mandato da presidente Dilma não vai ser nenhuma grande tragédia, mas ela é responsável pela formação de seu governo, pela incapacidade de tomar iniciativas, pela falência da infraestrutura no Brasil, pela má qualidade da saúde. Esse é um governo reativo, sem a dimensão necessária para produzir um futuro diferente para o Brasil – e que passou o ano reagindo às crises que surgiram. O malfeito só é malfeito quando vira escândalo.

ÉPOCA – Em que o PSDB pode tentar se distinguir do PT?
Aécio – 
Estamos buscando identificar temas que criarão contraponto ao imobilismo do PT. Vamos ao principal. Fala-se muito do combate à pobreza como a grande marca do governo. Mas não se combate a pobreza só com um programa de distribuição de renda. O governo se contenta em administrar a pobreza em vez de fazer a transição real dos pobres para uma situação de melhor bem-estar. Isso ocorre porque o governo não enfrenta a questão de qualificação da educação como deveria.

ÉPOCA – O senhor disse que o governo administra a pobreza. Isso é uma crítica ao programa Bolsa Família?
Aécio – 
O Bolsa Família é essencial e está incorporado à realidade econômica e social do país. Mas você não vai tirar ninguém da pobreza dando o Bolsa Família. Quando o governo comemora não sei quantos milhões de pessoas no Bolsa Família, isso não deveria ser motivo de comemoração. A comemoração deveria ocorrer se o governo dissesse: neste ano nós vamos ter 2 milhões a menos de famílias necessitadas de receber o Bolsa Família, porque o governo deu a elas qualificação, acesso a emprego de qualidade e meios de construir seu destino.

ÉPOCA – O PSDB carrega a pecha de ser um partido que perdeu a conexão com o povo. Esse seminário recente teve a participação de vários economistas ligados ao mercado financeiro, mas poucos nomes da área social com o mesmo peso. Não é uma contradição com a intenção de renovar o partido?
Aécio – 
O seminário foi muito equilibrado. E a presença desses economistas foi proposital. Procuramos resgatar algumas figuras que tiveram papel essencial nas reais transformações do Brasil. O maior programa de transferência de renda que nossa geração assistiu não é o Bolsa Família, mas o Plano Real, que tirou dezenas de milhões de famílias do flagelo da inflação.

ÉPOCA – Mas como resolver essa questão da conexão com os setores mais pobres da população?
Aécio – 
Administramos metade da população do país, e essa questão não existe nos Estados onde vencemos as eleições. Em Minas Gerais, ganhamos em todas as regiões mais pobres porque fizemos inclusão, melhoramos a qualidade da saúde, investimos em infraestrutura e reduzimos a criminalidade. Mostrar os bons exemplos de nossas ações é uma forma de mostrar que não somos populistas, mas administramos bem e com resultados sociais vigorosos.

ÉPOCA – O PSDB tem alianças com o PSB em vários Estados, inclusive Minas Gerais. O PSB pode ser parceiro dos tucanos em 2014?
Aécio – 
Tenho uma relação pessoal antiga com o Eduardo (Campos, governador de Pernambuco e líder nacional do PSB). Em determinado momento, ele trouxe um convite do avô dele, Miguel Arraes, para que eu me filiasse e fosse candidato pelo PSB. Acredito que possa ocorrer um encontro natural. Hoje, o PSB tem compromisso com o governo, mas haverá nos Estados uma movimentação natural para que setores do PSB e de outros partidos estejam próximos a nós. Chegaremos a 2014 robustos para disputar as eleições, até porque nas eleições municipais faremos muitas alianças com partidos que estão na base de apoio da presidente Dilma. E muitas dessas alianças serão contra candidatos do PT.

ÉPOCA – Uma pessoa com quem o senhor tinha boas relações no PSB era o (ex-ministro) Ciro Gomes. Mas ele recentemente o atacou numa entrevista dizendo que o senhor lê pouco e que isso é um problema para suas pretensões políticas.
Aécio –
 Tenho grande carinho pelo Ciro, mas confesso que não tive oportunidade de ler essa entrevista dele (risos). Não vejo isso como um ataque a mim.

ÉPOCA – O PSDB se articula para disputar as eleições municipais, mas na maior cidade do país, São Paulo, o partido não tem candidato forte. Isso não é um problema?
Aécio – 
Confio na liderança do governador Geraldo Alckmin, do ex-governador José Serra, que seria líder nas pesquisas hoje se fosse candidato, do senador Aloysio Nunes Ferreira. O PSDB encontrará uma equação positiva, com chances de vencer as eleições. Acho muito importante que o PSDB tenha candidatura em São Paulo.

Votei no congresso pelo endurecimento da lei seca e já a aplicamos em Minas. Meu episódio com o bafômetro já foi explicado “

ÉPOCA – O ex-governador José Serra quer ser candidato mais uma vez à Presidência em 2014. Como evitar a divisão interna?
Aécio – 
O Serra tem as qualidades para postular qualquer candidatura. Na hora certa, o partido decidirá. Política é a arte de ad-ministrar o tempo. Você não pode antecipar excessivamente nem perder o tempo de determinadas decisões. Acho que 2013 será o momento adequado de definirmos o candidato, e sou um defensor das prévias. O candidato não será aquele que mais quer ser. Será quem tem melhores condições de vitória e de alianças.

ÉPOCA – Que erros o PSDB cometeu nas últimas campanhas presidenciais e deve evitar em 2014?
Aécio – 
Abrir mão de defender nosso legado foi o maior dos equívocos do PSDB. Não teria existido o governo do presidente Lula se não tivesse existido o governo do presidente Itamar e do presidente Fernando Henrique, com a estabilidade econômica, a modernização da economia, a construção dos pressupostos de metas da inflação, superavit primário, câmbio flutuante. Essa foi a bendita herança para o governo do PT. E abdicamos de disputar isso. Quando eu era presidente da Câmara, o PT lutou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. E hoje, mais de 60% da população, numa pesquisa que nós mesmos fizemos, acha que quem fez a Lei de Responsabilidade Fiscal foi o PT.

ÉPOCA – Como o senhor acha que o PSDB deve tratar o ex- presidente Fernando Henrique numa próxima campanha presidencial?
Aécio – 
No que depender de mim, com papel de destaque. O PSDB subestimou a capacidade de influência do presidente Fernando Henrique. Não falo de capacidade eleitoral, mas de debater os grandes temas com a autoridade de quem é uma das figuras brasileiras mais respeitadas.

ÉPOCA – Ele recentemente tem-se destacado por defender a legalização do consumo da maconha. O senhor concorda com isso?
Aécio – 
Tive a oportunidade de dizer a ele que discordo. É bom que o tema esteja em discussão, sem preconceitos. Mas não conheço nenhuma experiência no mundo em que isso tenha ocorrido e tenha significado redução no consumo da droga.

ÉPOCA – As últimas eleições ficaram marcadas por um debate de viés religioso sobre a legalização do aborto. Qual é sua opinião sobre essa questão?
Aécio – 
A religião teve um espaço demasiado na campanha. Isso leva a radicalizações e impede que as questões centrais que mexem na vida das pessoas tenham um espaço necessário. Sou a favor da manutenção da atual legislação do aborto.

ÉPOCA – No começo do ano, o senhor foi flagrado dirigindo com carteira de habilitação vencida e não fez o teste do bafômetro. O senhor é favorável ao endurecimento da Lei Seca, em discussão no Congresso?
Aécio – 
Sou. Votei na Comissão de Constituição e Justiça pelo endurecimento da lei. Estamos aplicando-a em Minas, com resultados muito positivos. Esse episódio já foi explicado. Há sempre a exploração política, mas a gente tem de se preparar para ver isso com naturalidade.

ÉPOCA – Em resposta à provocação de Ciro Gomes, o senhor pode dizer que livros o senhor leu recentemente?
Aécio – 
Posso dizer o que estou lendo agora: A saga brasileira, que recebi com uma dedicatória especial de minha ilustre conterrânea Miriam Leitão. Permite a uma nova geração de brasileiros compreender o que foi o período inflacionário.

ÉPOCA – Há muita curiosidade em relação a sua vida pessoal. Como está a vida familiar hoje?
Aécio – 
Não acho que isso interesse a muita gente. Minas mostrou de forma clara que as pessoas se importam com as realizações do homem público – claro que com um comportamento adequado. Levo uma vida serena, familiar, com minha filha e uma namorada. Sou um homem de bem com a vida.

ÉPOCA – O senhor pretende se casar de novo?
Aécio – 
Você está parecendo minha namorada. Vou falar para ela primeiro (risos).

Fonte: Revista Época

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